DIVAGAR É PRECISO

Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Brigitte Bardot contra acusações de assédio em Hollywood

Brigitte Bardot antes e hoje.
Brigitte Bardot falou recentemente que a maioria das atrizes que afirmam terem sido vítimas de abuso por parte de atores, diretores e produtores está sendo hipócrita, pois, segundo Bardot, muitas mulheres se insinuam para os homens em troca de trabalhos. Ela segue a onda de outra atriz francesa, Catherine Deneuve, que há pouco tempo assinou um manifesto com mais 100 atrizes francesas repudiando movimentos contra o assédio moral/sexual. Depois, Deneuve pediu desculpas às vítimas de assédio e alegou que só queria se manifestar contra possíveis acusações. Não me surpreende, já que Bardot já foi preconceituosa contra muçulmanos, gays, imigrantes, mendigos, etc. Aliás, ela afirma nunca ter sido vítima de assédio, até gostando de ser elogiada (como quem não sabe diferenciar um flerte, uma cantada de uma situação abusiva e opressiva).

Bom, que bom que esse assunto ainda está no começo, na grande mídia, pois existem diversas possibilidades de caminhos a seguir. Eu vou deduzir algumas aqui para esse tipo de comportamento. A primeira coisa é você nem ter provas de nada e já deduzir que as acusações são falsas. Existe gente que só quer aparecer ou ainda se beneficiar ou prejudicar alguém? Sim. Podem existir acusações falsas por aí? Sim. Mas, pra ter chutado tão seguramente que movimentos em prol de vítimas de abusos são besteira por haver casos assim, das duas, uma: Ou elas são do tipo que se insinuaram muito em troca de papéis (e se foi, particularidades delas), ou estavam sendo assediadas e não só nunca perceberam (tempos em que isso era naturalizado, cultural) como ainda acharam que estavam no controle da situação (de ser objeto).

Graziella Moretto e Pedro Cardoso.
Há também a possibilidade de saberem alguma coisa por baixo dos panos que não sabemos. Alguma corrente interesseira da qual fizeram parte, ou apenas tomaram conhecimento, ou, confirmando meu ponto anterior, acharam que eram jogadoras espertas e estavam sendo apenas peças no tabuleiro. Lembro de Pedro Cardoso, ator, que há alguns anos, se indispôs com a mídia, paparazzi e essas coisas e nesse bololô da sua fama de resmungão (ninguém gosta de quem vai contra o senso comum), ele fez denúncias públicas sobre diretores que criavam cenas de sexo e nudez feminina, apenas para fazerem sessões prive com seus amigos e se gabarem de terem despido essa e aquela atriz. Uma total demonstração de machismo, de ‘poder’ sobre a mulher. Em tempo, a própria esposa do ator, a também atriz, Graziella Moretto teria sido vítima de uma dessas ‘pegadinhas’. Eles, inclusive, têm até uma peça juntos criticando o machismo.

Catherine Deneuve antes e hoje.
Enfim, como falei, não que Bardot e Deneuve não tenham lá sua razão pra falarem o que falam, mas acho que o momento não é de refrear essa tendência de denúncias. É justamente o contrário, vamos ouvir todo mundo e se for comprovado que não foi bem assim, ok, mas evitar o assunto logo quando ele tá se expandindo é covardia. Faz parecer que as atrizes veteranas querem esconder algo ou se promoverem sendo o pessoal ‘do contra’, que toma esse posicionamento babaca sempre que algum grupo socialmente oprimido denuncia o crime que sofre historicamente. É quando falam que é ‘mimimi’ ou ‘patrulha do politicamente correto’, quando querem ter resguardado o direito de ofender e agredir e tentar calar as vítimas na base da chantagem emocional.

Tipo aquele valentão que bate no nerd e o faz parecer ridículo se o nerd correr para denunciá-lo. Neste caso, o valentão não está desafiando o nerd (‘vai correndo contar pra mamãe’), ele está desesperadamente torcendo pra que o nerd se sinta envergonhado, pois sabe que entrando a autoridade (a lei ou, no exemplo, a mãe) na história, ele corre muito mais risco de pagar pela ofensa ou agressão.


No mais, sempre vai ter a turma do ‘ah, você tá fazendo tempestade num copo d’água’. Pegue o copo com água, jogue na cara do intrometido que nem foi chamado na conversa e siga denunciando, apoiando e debatendo o assunto. Assédio é crime, gente, não é um mero bate-boca de esquina. Pessoas se traumatizam, se deprimem, isso afeta o ser humano e as pessoas à sua volta.


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Flavio Rico e o politicamente correto

Existe uma questão que quando começou a se popularizar na boca da galera, já nesses tempos em que a internet no celular , pra muitos, é fonte incontestável da verdade, não teve o devido desenvolvimento conceitual e já foi tão banalizado que as pessoas que ainda usam o termo, não fazem ideia de como explicar ao certo o que significa. Eu vou tentar dar (UIA!) meu parecer.

Primeiramente fora temer,  estabelecendo o mote deste texto: O blogueiro Flávio Rico, muito experiente no ramo televisivo, tendo trabalhado em grandes emissoras de hoje e de outrora, já deixou claro, em seu blog, que não viu racismo na declaração 'é coisa de preto', de William Waack. Tendo defendido, inclusive, que houve um exagero, que conhecendo o jornalista há muitos anos, ele não teria demonstrado racismo, apenas um mal entendido que, segundo Rico, seria só uma questão de um pedido de desculpas público e segue o baile.

Não apenas isso, Rico esteve recentemente no Altas Horas e foi perguntado por um jovem da plateia sobre o que ele achava do 'politicamente correto', sendo respondido prontamente com um 'muito chato'. E é aí que eu começo a fazer das minhas e vou discorrer sobre o assunto com uma análise do lado que sofre o racismo e que não se vê na TV em 95% das situações mostradas. Vamos lá? Vamos.

A começar pela defesa de William Waack, ele defendeu de forma mais amena (e igualmente corporativista) um argumento que Rachel Sheherazade falou. Segundo a moça que defende linchamentos e justiçagens de playboys delinquentes, Waack foi vítima do 'hipocritamente correto', numa nítida alusão ao termo que, hoje, sem muita descrição conceitual, significa, pra 'eles', ter que segurar a língua pra não falar besteira e tocar um processo. Ou seja, neste caso, demonstra ser "Flávio Rico = Sheherazade". Ponto muuuito contra ele, mas prossigamos.

William Waack, pra quem ficou por fora no fim do ano passado, foi filmado - e vazado - declarando ser 'coisa de preto' quando alguém passa na rua buzinando, incomodando sua atuação no estúdio de jornalismo. Essa atitude, para Rico, não é racismo e por quê? Porque eles se conhecem há décadas e nesse tempo de amizade, ele nunca viu racismo da parte do amigo de olheiras. Oras, se você nunca reparou racismo nele em décadas, só pode significar duas coisas: Ou você é tão racista quanto ele e lhe parece normal atribuir julgamentos e comentários pejorativos a nós, negros (e sabe lá mais quem); ou você pode até ter se surpreendido só agora, mas não isenta 'é coisa de preto' de ser racista.

Ou foi enganado por muito tempo, ou foi distraído por muito tempo. Mas o que vai te ajudar, leitor internauta amigo, a formar sua opinião, vai ser o seguinte: Aquele 'muito chato' que Rico respondeu pode ser interpretado até como uma crítica justa, porque existe muita coisa aí que é exagero e moralismo (que sempre é falso, no máximo, hipócrita). Primeiro, a gente tem que entender que 'politicamente correto' é um termo antigo e significava, basicamente, fazer o tipo 'piada de salão', ser moralmente adequado ao contexto geral da sociedade.

De uns anos pra cá, principalmente no humor, algumas pessoas forçaram tanto a barra, que o termo 'politicamente correto' passou a se chamar de 'patrulha', como se fosse uma perseguição aos 'pobres coitados' comediantes que só queriam fazer suas piadas preconceituosas sem serem processados. Dito isso, o que Flávio Rico quis dizer com 'muito chato'? Bem, no complemento de sua resposta, ele falou que era muito chato ter que ficar se policiando sobre o que falar, pra não dar confusão lá na frente...

Então, eu, particularmente, concluo que o que incomoda a ele é o mesmo que incomoda a Danilo Gentili ou Rachel Sheherazade, por exemplo... É um cara branco, rico (perdão pelo trocadilho) que trabalha num meio onde uns 90% dos contratados e privilegiados são brancos e ricos, sendo que esse meio trabalha sustentado pela maioria negra/parda da sociedade. Deve ser muito chato pra esses caras quererem tornar públicas suas piadas internas preconceituosas e se verem diante de um paredão de opiniões opostas. Pra eles, é patrulha, pra gente é justiça.

Antes de fazer minha reflexão conclusiva, deixa eu dizer o que seria, de fato, politicamente correto: Seria ser parte do grupo que defende os costumes do senso comum, o 'moralista', aquele que quer tudo tão certinho que chega a ser forçado, correto? Então, meus amigos, pra mim, quem realmente tenta manter os costumes como sempre foram há décadas, séculos, é justamente essa turma do preconceito aí, que quer estar acima do bem e do mal pra falar e ofender quem quiser, sem se importar com sentimentos alheios. Na minha visão, ELES deveriam ser chamados de politicamente corretos. O que fazemos ao nos tornarmos militantes de causas sociais, é justamente propor e promover a revolução dos costumes que atrasam a sociedade, buscando mudanças mais justas para todos.

Enfim, defender uma atitude racista já é se tornar, no mínimo, cúmplice, pois racismo é crime, não é só uma opinião. Aliás, crime e desvio de caráter, pois se a opinião carrega essa ideologia cruel e retrógrada, além de criminoso, boa gente não é... não para negros. E se um homem branco e rico acha que o politicamente correto é chato, só pode estar incomodado com a falta de liberdade absoluta de expressão... Sem perceber - ironicamente tendo experiência de anos na TV - qual o limite da comunicação.

E quando um cara - com tantos anos na TV - acha chato ter que escolher melhor o conteúdo que vai publicar, ou ele não é tão bom assim ou ele é tão preconceituoso que não poder ofender um grupo socialmente oprimido lhe causa urticária. Não sabe filtrar pra se expressar ou é do mal. Se não vai falar com respeito aos outros, se não se coloca no lugar do outro pra entender o que ofende, então era melhor abandonar esse meio e fazer alguma outra coisa pra viver, que não dependa de informar coisas ao público.

"Nada descreve melhor o caráter dos homens do que aquilo que eles acham ridículo." - Johann Goethe.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ratinho faz declaração homofóbica e deve responder na justiça

"Você acha que tinha 'viado' naquele tempo? É muito 'viado': é 'viado' às seis da tarde, é 'viado' às oito da noite, é 'viado' às nove da noite, é 'viado' às dez da noite, é muito 'viado'. Eu não sei o que está acontecendo, não tem tanto 'viado' assim. Ou tem? Será?".

A tonelada de fofura (#sqn) acima foi expelida por Carlos Massa, o Ratinho, apresentador famoso por promover bizarrices em seu programa, desde que deixou de ser apresentador de jornalísticos ‘mundo-cão’, discípulo de Alborghetti.

Bem, não é de hoje que Ratinho diz ter assistido a algum programa da Globo pra detonar em críticas moralistas (certa feita, não lembro em que programa era convidado, chegou a dizer que o Brasil precisava de mais religião, e não educação, por exemplo). Ele sempre fala que viu o programa concorrente e diz que aquele programa lá é que está acabando com a moral do país – e não o seu, com aqueles figurantes contratados pra se passarem por familiares encrenqueiros.

Mas a questão aqui é que a declaração que inicia este texto foi proferida e sim, é homofóbica em cada letra e fio do bigode do bronco televisivo. A Defensoria Pública acora quer que ele seja indiciado e o SBT, que costuma não comentar assuntos internos, deve deixar o bacana segurar a bananosa sozinho. O que é até justo, considerando que ele falou por ele mesmo, as emissoras adoram afirmar que suas opiniões não são emitidas por seus contratados e o que Ratinho fez, além de um monte de baboseiras, foi exercer homofobia pura pra cima dos gays.

Perceba dois fatores no acontecido:

1 – Ratinho ofendeu diretamente gays nas produções da Globo. Ele não criticou nem aqueles clichês, como dizer que a emissora está acabando com a decência (porque a opção seria desligar a TV e ele não quer isso).

2 – Depois de cuspir impropérios como dizer que ‘naquele tempo não tinha isso não’ (ignorando que a violência e o moralismo faziam muito mais gente ficar dentro do armário do que hoje), ele demonstrou se incomodar mais com a representação de gays do que com qualquer outra coisa.

Como bônus, depois de ser confrontado na internet, veio com aquele bordão displicente e cínico de tão desrespeitoso que é: “Era só brincadeirinha”. Pois é, Rato, vai segurar a peia na justiça, porque se homofobia não é previsto como crime, ela se encaixa fácil em injúria. Se fosse o caso, poderia se enquadrar até em agressão ou tentativa de homicídio. Não é crime, mas delata muito o caráter de alguém que usa e defende esse tipo de discurso. Afinal, ele quis jogar a opinião de seu público contra a concorrência usando a homossexualidade como o ‘mal’ que ela propaga.

No fundo, tanto globo quanto SBT são farinhas do mesmo saco, visto que Silvio Santos já trabalhou na platinada e igualmente à família Marinho, se beneficiou de amizades no alto escalão do governo em época de ditadura para conseguirem ou crescerem com suas concessões radiodifusoras. E Ratinho, individualmente, não me surpreende, mas seria legal ele responder de fato, pra servir de exemplo e mostrar que justiça não é só pra se clamar quando eles querem fazer discurso demagogo contra corrupção na política, mas também em nome do respeito à diversidade cultural, social, comportamental que seja que temos por aí.

Esse tipo de gente não pensa que sua conversa de ‘brincadeirinha’ pode fazer qualquer idiota na rua se achar representado até na TV, achando legal e normal ofender gays e tratar a situação como um erro, uma imoralidade...

Vamos fazer um exercício de reflexão? Lá vai: Pabblo Vittar e Thammy Miranda são constantemente alvo de piadas de quem acha que o diferente é um brinquedo pra se divertirem às custas... Suzane Von Richthofen e Guilherme de Pádua são héteros (pelo menos Suzane era até o momento que a fez tristemente famosa). Pense no que é realmente crime e se homossexualidade está lidada a isso.


Agora, Ratinho... Quem muito desdenha quer comprar? Rrratinho nho nho!

Fontes:

http://odia.ig.com.br/diversao/celebridades/2018-01-08/defensoria-publica-pede-punicao-de-ratinho-por-discriminacao-homofobica.html

https://diversao.r7.com/prisma/keila-jimenez/apos-detonar-gays-na-novela-da-globo-ratinho-diz-que-foi-apenas-uma-brincadeira-08012018

https://diversao.r7.com/prisma/keila-jimenez/ratinho-pode-responder-na-justica-por-homofobia-08012018

PS: Em resposta a isso, André Gonçalves diz que o melhor papel de sua carreira foi um gay (se referindo a Sandrinho, da novela A Próxima Vítima). Já Marco Feliciano, um pastor evangélico que destila discursos de ódio variado, disse que é uma 'ditadura gay' contra Ratinho... Nhé, nessa hora a gente só olha pra onde ele não está e muda de assunto, porque esse cara não tem a mínima condição de falar em comportamento social, já que vive da fé alheia na religião e na política.

Luan e Vanessa - Quatro semanas de amor


Sabe os episódios de Os Simpsons ou Family Guy, que passam os primeiros 5 minutos em uma situação que leva a outra completamente diferente e o restante todo do programa vai ser sobre o novo assunto? Este texto é isso, sem explicar muito.

Bem, começou com uns vídeos de ‘fail’ que eu assistia e me deparei com um ratinho branco e gordo que fica ‘triste’ ao ter oferecido – e negado em seguida – algo como um pedaço de fruta, caroço de ameixa, ou sei lá. Na edição do vídeo, o ratinho faz cara de triste, desiste do alimento e não aceita nem com a pessoa esfregando a coisa na carinha desolada dele (ou dela). Nessa hora, toca The Sound of Silence, de Simon & Garfunkel e é hilário como a canção ilustra a ‘mágoa’ do pequeno roedor.



“Ma o que pega, Saga?”, o que pega, meu caro gafanhoto é que a primeira frase da tal música sempre me lembrou muito o primeiro verso de Quatro Semanas de Amor , versão de Luan e Vanessa para Sealed With a Kiss (Jason Donovan) e que foi sucesso brutal lá nos idos de 1990, sendo uma das músicas mais tocadas do ano. Hoje, é, na verdade, o único sucesso da dupla, que se tornaria um casal e hoje, uma família com um casal de filhos e que vive nos EUAses.



A história, pra quem lembra, foi que Vanessa Camargo Delduque de Carvalho estava saindo do Trem da Alegria, pois estava nitidamente crescendo, o que não condizia com a proposta intantil do grupo... er... infantil. Tinha já 14 anos no ano de 1988, quando se deu sua saída. Ela, então, conheceu Luciano Chaves de Carvalho, o Luan, e formaram a dupla.Também fora integrantes de um grupo de música católica chamado Cantores de Deus e depois de 6 anos, deixaram o conjunto e se mudaram para os states e ter sua própria produtora musical.





Enfim, é isso, um verso de uma música levou a outra e eu queria muito postar esse clipe aqui, porque achava aquela interpretação toda performática de uma breguice tão constrangedora quanto fofa... bem como namorados são mesmo, né? A gente acha lindo, mas tipo... ah, vá. Hahaha. 


E repararam no início da coreografia. Eu lembrava até da carregada de colo no final, mas essa deitada de cabeça perto da virilha eu só recordei quando assisti agora de novo pra escrever. 



Isso me faz lembrar uma cena de Caminho Para El Dorado, quando nitidamente o casal se levanta em posições diferentes, tipo... não estavam só se beijando.



Rá!

domingo, 24 de dezembro de 2017

Pabllo Vittar não pode ser representativa e imperfeita?

Pabllo Vittar foi uma grata surpresa que 2017 me trouxe. Primeiro, eu só ouvia o nome e achava que podia ser algum pop-funk-pagonejo qualquer, desses que a gente nem decora, porque vai sumir mais genericamente do que apareceu. Até que vi um clipe de Preta Gil e vi que se tratava de uma drag Queen, ali, montadona, dançando, rebolando e cantando como se fosse normal...

Opa, Saga, peraê, caceta! Como assim ‘como se fosse normal’??? Calma, falei pra te provocar, gafanhoto! Normal sim! ela não estava fazendo um tipo, não era um estereótipo, caricatura e nem alívio cômico do clipe. Era uma artista performando junto a outra artista, no melhor estilo ‘feat.’, daqueles artistas pop da gringolândia (Usher feat. Alicia Keys, por exemplo). E isso foi o que me chocou positivamente. Eu esperando qualquer trejeito mais amalucado e nada! Não era como se o Tirulipa ou o Rodrigo ‘centarro’ Santana estivessem ali pra fazer uma trans como mote de piada.

Pois bem, o que me trouxe aqui pra falar de Pabllo foi desdobramento direto do texto que publiquei aqui, ontem mesmo, sobre a resposta de Tico Santa Cruz a uma crítica debochada de Falcão pra cima da cantora. Eu até já poderia ter falado nisso antes, sobre a representatividade de Pabllo, para o público – e artistas – lgbt, no âmbito pop ‘normal’, e não só no universo gay/trans, como um nicho isolado da sociedade. Se aparecer mais uma nesse estilo, acho que a sociedade teria que rever seu conceito de ‘boate gay’, pois o mundo ia ver que Pabllos são Pabllos e isso não destrói o mundo. Violência, desemprego e hipocrisia, sim, destroem o mundo. Mas, deixa eu voltar ao fio da meada.

Pabllo logo se destacou e muito dessa popularidade veio por ser uma drag. É o peso que se carrega com a fama, sobretudo em tempos de internet a jato, onde toda novidade ganha atenção de forma massiva extrema. O tal peso que falo são as críticas. Sim, todos somos passíveis de erros, de críticas e no mundo do ‘show business’, isso se intensifica. Pabllo não estava imune e não estará. Mas o que pega é que ela ser quem é, e botar a cara, incomoda muita gente que acha que respeita o gay, só porque em vez de pensar em matar, deseja que suma da sua frente, pra um país bem longe e sem câmeras.


Pabllo atraiu críticas pelo seu modo de cantar (opinei sobre isso no outro texto. Aqui, só vou falar sobre sua representatividade). Muita gente caiu pra cima dela, como Falcão fez, mais recentemente, mas a resposta de Tico Santa Cruz foi muito lúcida e elevou o assunto a um patamar muito mais complexo, que está me fazendo analisar o impacto na cultura pop e na própria sociedade. Daí, que eu levanto a questão, seja você a elogiar ou criticar Pabllo: Até que ponto você entende as críticas como análises críticas musicais e até onde o que incomoda parece ser mais o fato de ser uma ‘bicha’?

Digo porque ninguém faz alarde por Anitta alternar miados e gemidos em vez de cantar; não se reclama dessa sertanejarada gritando como se o microfone ainda fosse item de uso exclusivo dos Jetsons, nem do pagodez que uiva (Thiaguinho, apontei pra você agora. Rá!) ou do funk que ou grita ou cochicha. Nenhum desses itens da moda é criticado assim, com esse sorriso “William Waack dizendo coisa de preto”. E é aí que eu desdobro meus questionamentos do parágrafo anterior: Até que nível essas críticas rasgadas a Pabllo são apenas pra pegar carona no ‘meme’, uma onda do momento, e até que ponto é a homofobia escapulindo disfarçada, como gás venenoso vazando pela fresta da parede do ‘moralismo’?

Teve um lance, na série Eu a Patroa e as Crianças, que Michael não podia castigar os filhos por uma regra de reunião de família... Mas, em outro dia, por outro motivo, ele achou a brecha que queria pra retaliar algo que Junior fez. Estava na cara que o pai estava sendo mesquinho, mas mesmo sabendo que não tinha um motivo a ver com outro, ele expôs sua ‘maldade’ e desabafou sua ‘necessidade’ de agir contra seu filho. Pabllo está passando por isso, certamente. Eu passo isso, todo mundo que tem um traço de oprimido social passa por isso.


Desde muito pequeno, dentro de casa ainda, sempre ouvi que deveria ser 150%, sendo os cinquenta a mais só de saída por ser negro. É uma cobrança cruel, pois um branco pode fazer qualquer merda, que não é julgado com peso a mais por sua etnia. Mas se eu errar, vou ouvir ‘tinha que ser preto’ (alô, Waack, eu de novo, passa no RH depois do bacalhau da ceia de natal. Rá!). Pabllo está com esse alvo no peito. Muito mais que ser uma pessoa pública do momento, Pabllo é criticada por ser gay/trans/etc. Note pelos exemplos anteriores que ninguém vem com tanta raiva julgar e criticar o ‘canto’ dos outros (até se critica estilo, letra... mas o cantar, a ferramenta de trabalho? Isso não se faz).


A homofobia, irmã incestuosa do moralismo, grita tão alto que só os cães e conservadores ouvem. Mas e aí? Pabllo não pode ser imperfeita dentro de sua representatividade? Eu já respondo: Pode e deve, pois, se deus quiser, não será a única por muito tempo. Que venham mais que tá pouco, pois sua representatividade até para héteros (sobretudo crianças) é o que pode quebrar a barreira do preconceito subconsciente do senso comum metido a moralista da sociedade. Pabllo é uma pioneira dos novos tempos e ainda vai levar muita sabatina em praça pública, mas sem suor, não tem coroação.

E tem aqueles caras que acham que vão se afirmar como machinho por diminuir um gay/trans, e sentem a necessidade de negar a identidade de gênero dela (e de todas), dizendo que (Pabllo) é homem, se referem a ela como 'ele' e dizem que seu nome é de homem... Quando disserem isso, pergunta pro machão espertão se ele próprio e Pabllo se parecem, porque, na teoria do moralista, é tudo homem igualmente. Rá!

Ah, e se você é o tipo que diz 'não ter nada contra', mas morre de medo de ser associado a gays, fique tranquilo, você não é necessariamente um hipócrita homofóbico manso, é só mal informado e talvez, um pouquinho covarde. Mas ainda há tempo, defender, respeitar ou apenas reconhecer os direitos de gays não te torna gay. Te torna humano, cidadão. 

sábado, 23 de dezembro de 2017

Falcão, Pablo Vittar, Tico e as críticas respondidas


Falcão, o cantor nordestino, não o vocalista d'O Rappa, fez críticas a Pablo Vittar, sobre sua performance cantante. Tico Santa Cruz saiu em defesa da cantora e os dois têm sua razão, mas precisam analisar mais minuciosamente a questão, pois um ponto de vista mais lógico passa e se alimenta necessariamente nos dois pontos de vista, na minha opinião. Concordo com Tico Santa Cruz ao defender a importância de Pablo Vittar na representatividade trans na sociedade e na cultura pop... Palmas e o Tocantins inteiro para a artista! (mas defender seus desafinos e falsetes pode ser uma arapuca que queimará o filme lá na frente. Sabe, daquele tipo que ganha o respeito pelo lado social, mas perde pelo lado artístico?).


E o pior de tudo é que a maioria nem sabe diferenciar. Tem homofóbico que nem entende de música criticando, tem lgbt defendendo falhas técnicas e artísticas confundindo arte e representatividade... Enfim, ainda não se preparou a sociedade pra debater o assunto sem vícios, maldades e discernimento das particularidades do tema. Mas é legal que se levante a questão hoje, pra que o assunto amadureça e, um dia, tomara, possamos conversar sobre isso como tem que ser, isto é, de modo a comportar essa fatia da sociedade de modo a serem vistos como cidadãos e cidadãs trans e que isso signifique a normalidade no que diz respeito a aceitarmos que existem pessoas diferentes do protagonista da novela e que ser diferente não é um crime e nem diz respeito a ninguém, restando o respeito da população em geral.


Minha preocupação mesmo é que na ânsia de se legitimar um importante passo de representatividade gay/trans, o lado musical fique blindado no velho clichê, já citado, de um lado não aceitar críticas achando que é tudo homofobia, muito menos o outro lado achando que tudo se defende porque é gay/trans. Isso só esvazia o bojo do rico assunto a tratar e corre o risco de aceitarmos apresentações cantadas assim:

Defesa contra crítica não pode ser blindagem contra críticas. Não sei se Falcão usou de alguma homofobia pra criticar, pois conheço gente bem ruim que tá aí na praça há tempos e só agora que ele resolveu bater no alvo da vez, Pablo... Ou só agora que ele falou em Vittar que a mídia deu destaque pra por lenha na fogueira e vender com a polêmica, vai que ele já criticou outros e ninguém deu atenção...... Por outro lado, eu, particularmente, vi performances da cantora que me deixaram desconfortável quanto à afinação e respiração. Não sou nenhum expert em técnicas vocais, mas pegar em microfone pra cantar e conviver com cantores de ocasião ou estudiosos, ah, isso eu sei. Mas a discussão saudável é importante nesses detalhes. Fontes: http://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2017/12/falcao-critica-pabllo-vittar-criatura-pra-cantar-mais-ruim-do-que-eu.html https://extra.globo.com/tv-e-lazer/musica/tico-santa-cruz-defende-pabllo-vittar-apos-criticas-de-falcao-22218086.html

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Papai Noel pode ser negro?



Não sei se é real a história que acompanha essa imagem, de que teriam se queixado num shopping a respeito do papai noel negro de lá... Mas como toda vez que se mexe na etnia de um personagem originalmente caucasiano, vem um monte de nazista dizer que "se fosse preto e colocassem um branco vocês não iam gostar", apenas respondo:

A maioria dos personagens famosos de hoje, foram concebidos há muito tempo, quando a cultura geral só enxergava o branco como consumidor. Hoje a diversidade é palpável pra todos os lados e faz-se necessário, cultural e comercialmente, variar para criar identificação nos diversos subgrupos do grande grupo de consumidores cidadãos.

Ah, e sobre tornar o pantera negra em branco, por exemplo, não seria o mesmo. Personagens brancos são criados assim a toque de caixa, porque é o 'normal'. Já um personagem negro, indígena, japonês, etc, é criado para representar aquele grupo social. Ser branco, pro capitão america ou pro homem de ferro não faz diferença como ser negro é importante pro pantera ou o super choque.

Papai noel não existe. Não vai deixar de te dar presente porque algum negro se fantasiou assim. Rá.

William Waack é oficialmente demitido da Rede Globo por comentário racista



Então, aconteceu o que já era pra ter acontecido. Willian Waack demitido oficialmente da Rede Globo, após um vídeo de bastidores vazado em que o ‘jornalista’ emite comentário racista. Em comunicado oficial, assinado pelo próprio Waack e pelo manda-chuva do jornalismo de lá, Ali Kamel, a emissora se diz contra racismo ezzZZZZZZZ.... toda aquela conversa que eles mandam mais como formalidade do que outra coisa. É como um deputado chamar o outro de excelência e logo antes ou logo depois, chamar o cara de safado, saca? Só fala pra amenizar a bomba, mas não é o que fala seu coração. Falsidade, politicagem, chame do que quiser, é babaca de qualquer forma e a gente não se engana.

Mas como eu não to aqui pra tapar esgoto aberto com lenço perfumado, vamos observar o tom da hipocrisia dessa atitude meramente política. Vamos? Vamos. Primeiro, o vídeo:


Agora, o tal comunicado:

"Em relação ao vídeo que circulou na internet a partir do dia 8 de novembro de 2017, William Waack reitera que nem ali nem em nenhum outro momento de sua vida teve o objetivo de protagonizar ofensas raciais.Repudia de forma absoluta o racismo, nunca compactuou com esse sentimento abjeto e sempre lutou por uma sociedade inclusiva e que respeite as diferenças.Pede desculpas a quem se sentiu ofendido, pois todos merecem o seu respeito.

A TV GLOBO e o jornalista decidiram que o melhor caminho a seguir é o encerramento consensual do contrato de prestação de serviços que mantinham.A TV GLOBO reafirma seu repúdio ao racismo em todas as suas formas e manifestações.E reitera a excelência profissional de Waack e a imensa contribuição dele ao jornalismo da TV GLOBO e ao brasileiro.E a ele agradece os anos de colaboração".



Agora, vamos analisar, sabendo que a coisa foi escrita pelo jornalismo que vem ditando o certo e o errado há mais de 5 décadas no país de forma áudio-visual. Ou seja, enquanto jornalista formado, estou bem vacinado pra palavras bonitas e nem espírito natalino compreensivo se espera de mim, já que nem sou dado a essas religiosidades, muito menos hipocrisias sócio-comerciais pra me tornar legal apenas em dezembro. Vamos lá(rrr).

“(...) William Waack reitera que nem ali nem em nenhum outro momento de sua vida teve o objetivo de protagonizar ofensas raciais”. Como assim, nem ali e em nenhum outro momento? Ele xinga alguém que buzinou grosseira
mente próximo ao estúdio (até aí, eu xingaria também, pois buzina não resolve nada, só irrita). Mas, gratuitamente, ele atribui o ato deselegante a ‘preto’, numa certeza de que somente uma pessoa negra faria aquilo que causaria inveja a qualquer cartomante, dado o poder de dedução e adivinhação, pra não dizer perseguição também, pois o que a raça negra fez a ele pra gerar esse ódio e desprezo? Foi ali e deve ter sido em outros momentos sim, já que quem pensa assim não o pensa só uma vez. Seguindo...

“Repudia de forma absoluta o racismo, nunca compactuou com esse sentimento abjeto e sempre lutou por uma sociedade inclusiva e que respeite as diferenças.Pede desculpas a quem se sentiu ofendido, pois todos merecem o seu respeito”. Repudia negros, na tradução, né? Sempre lutou por uma sociedade inclusiva dele e da turma que o defende, que provavelmente, pensa igual e não apenas defende um amiguinho. Quem defende racismo, está defendendo a si mesmo, com medo de ser o próximo denunciado a levar um flagra. Já até escrevi aqui mesmo no blog outros momentos de ‘glória’ de Sr. Waack, como quando atribuiu o assassinato do guitarrista Dimmebag Darrel à ‘violência que seu próprio heavy metal incita’, ou seja, preconceituoso e metido a moralista.


Diego Rocha.
Depois, o segundo parágrafo todo é uma confirmação das mentiras do primeiro, e dando aquela aquecida de pano, dizendo do valor profissional do cara e a suposta política de inclusão de diversidade cultural da emissora. Sobre isso, olha, melhorou muito pra comunidade negra desde A Cabana do Pai Tomáz, quando a protagonista negra tinha seu nome preterido por brancas apenas porque a emissora achava que ia afastar o público (diante do silêncio de todos os seus colegas; e da própria emissora, diante do patrocinador)... Mas é só ligar a TV que a gente vê que a emissora não tem 10% de negros em suas produções. Protagonistas, então, nem pensar. Raridades até quando o contexto retrata classes mais pobres (onde somos maioria certa, por reflexo do pós-escravidão, mas falo disso outra hora).

Conclusão: Bem feito pro Waack, pois racismo é crime e se não for processado, ao menos levou um chute elegante no... trabalho (Rá!). E parabéns a Diego Rocha Pereira, ex-operador de VT que divulgou o flagra. Se teve receio de perder o emprego antes, tendo sido demitido num corte de pessoal posterior (olha a barca!), fez mais do que certo em externar a ofensa sofrida ao viralizar esse lixo de racismo. Não, a ofensa não foi direcionada a ele pessoalmente, mas quando se fala assim, ofendem a todos nós, nos atribuindo um juízo de valor pejorativo e, o pior, com um sorriso triunfante no rosto.

Diego Rocha, o divulgador do vídeo-chave.
Não tem essa de ser bom jornalista. Você perdoaria o Maníaco do Parque porque era um bom patinador? Se você releva um crime por amizade, ou por admiração, então, você é cúmplice. Talvez, até seria o próprio criminoso. Só não foi flagrado. Ainda. Imagina quantos não estão se borrando agora com esse medo. Meu professor de radiojornalismo, Alexandre Ferreira, da Rádio Globo, diga-se, sempre nos alertou para os cuidados com o que se fala num estúdio, seja por gravação ou por transmissão ao vivo.  

P.S.: Ali Kamel, o diretor Thanos do jornalismo global, possui um livro chamado 'Não Somos Racistas'. Daí, a hipocrisia explodindo na ponta do nariz, daí, ele torcer esse mesmo nariz para nós, ramificações do Movimento Negro Unificado.

P.S.: Acho que ele quis dizer 'NÓS Somos Racistas', mas todo racista sabe que é crime, então se esconde nessas falsidades, pois o sistema os apoia e lhes dá o benefício da dúvida.

Fontes:

https://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/entretenimento/2017/12/22/apos-comentario-racista-william-waack-e-demitido-da-globo.htm

https://mauriciostycer.blogosfera.uol.com.br/2017/11/09/nao-postei-antes-por-medo-de-ser-demitido-diz-editor-do-video-com-waack/


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O homem perfeito é o produto da mídia que reflete a sociedade em que vivemos



O mundo é louco e a prova disso é que eu concordo com Luana Piovani em algo de nível ideológico. Vou explicar. Há algumas semanas, li uma notícia dessas, de celebridades e seu mundinho de nárnia, e a referida atriz falava sobre essa imagem desnecessariamente difundida de perfeição do ‘ator’ e apresentador Rodrigo Hilbert.

Independente de ela já ter namorado o rapaz, antes de ele se casar com Fernanda ‘só por que eu sou branquinha’ Lima, o que ela falou dá para uma bela reflexão. Ok, a linha de raciocínio que vou abordar não é bem a mesma que Piovani indicou mencionar, mas até aí, não atrapalha. Vamos lá? Vamos.

Primeiro, o mais óbvio: Não existe perfeição. O conceito é, nitidamente, um... er... conceito! Uma teoria, um ideal imaginado, algo tão subjetivo que seria impossível de se aplicar a todos de maneira padronizada. E se formos olhar de modo genérico, dizer que o tal é o... er... o tal, o ‘homão da porra’, teremos que avaliar os valores da sociedade que contribuíram para a construção desse mito moderno-contemporâneo/meme de internet. Vamos lá? Denovo: Vamos.


Vamos começar pela arte: Não é um grande ator, visto que fez umas figurações e comerciais antes da fama. Dizer que é bonito, segundo os padrões estéticos também é muito tendencioso e esse escopo ‘família’ e tals é, muito possivelmente um personagem feito pra vender a imagem do cara perfeito, confiável, o garoto-propaganda ideal. E isso tudo diz alguma coisa da sociedade que vivemos e da sociedade que a mídia quer impor e manter. Mas o que não é dito também transmite e reforça esses ideais.

Vamos pelo óbvio: A propaganda funciona de verdade em cima de paradigmas, ou seja, de ideias já pré-concebidas (tipo creme dental e balas de menta que são vendidas com a ideia de que o bom hálito vai atrair beijos), então, os anunciantes precisam segurar o senso comum nesse gesso mental. A mídia não ia funcionar e nem formar opinião se todos mudassem de ideia sobre o que é ‘normal’. E se mudar, eles mudam junto. Por exemplo, há alguns anos, seria inimaginável um casal gay ser representado numa novela sem ser uma caricatura, conforme parte da sociedade abriu a mente, hoje, gays aparecem como pessoas normais e não estereótipos do Casseta & Planeta.

Sendo assim, vemos que Rodrigo Hilbert, o belo, perfeito, educado, família... é um estereótipo também, só que do tipo ‘positivo’. Aquele que a sociedade foi acostumada pela TV a achar o mais confiável. Ele é branco, casado, hétero, não se fala em religião, o que conota não ser de algum culto ‘alternativo’ e, parece, sabe ciudar bem da parte gastronômica da casa.
 
Veja bem, Lázaro Ramos é tudo isso, além de ativista de causas sociais, canta, dança, representa, apresenta e... cadê? Só há espaço pro boneco de cera? Lázaro Ramos é tudo que se admira em Rodrigo Hilbert e significa muito mais no campo artístico, que é o que deveria interessar primordialmente, mas é negro, né? Não se faz alarde com seu lado família. E olha que sua esposa famosa é igualmente mais relevante em nossa cultura contemporânea. Pra começar, combate o racismo em vez de se colocar no lugar ‘não tenho culpa de ser branca’ e não fica ostentando babás negras como mucamas da vida moderna enquanto se faz de sonsa (lembra quando preteriram Lázaro e Camila Pitanga pelo casal loiro no sorteio da copa?).

É isso. Lázaro Ramos e Taís Araújo são muito mais que um casal de comercial de margarina, preparados para ser os queridinhos brancos da sociedade racista em que vivemos. São artistas talentosos e seres humanos admiráveis. Mas a sociedade de mentalidade provinciana brasileira ainda não tem capacidade geral pra entender ou mesmo perceber isso. Em grupos, até conseguimos ver, mas quando o tal do gigante adormecido é quem tem que abrir os olhos... aí, é pura bagunça.

Tem gente que acha que esse tipo de observação é inveja ou insegurança da auto-estima masculina, mas vamos lá... seria como se sentir inseguro por causa do Thor ou do Superman... Um modelo de perfeição europeu (sim, os EUAsis foram colonizados e povoados pelo velho e invasor continente). Um molde euro-ariano-cara-de-rato que não deveria ser tão bajulado no país de maior população negra fora do continente africano. Esse é só UM dos traços de desigualdade e desvantagem que nós, negros, passamos, frente aos privilégios dos brancos. Reflita. 

Disney, Marvel, Fox e essa zorra toda



Quando a Marvel esteve na m... ela vendeu os direitos de várias de suas marcas para outros estúdios para pagar dívidas e não falir. Com isso, não podia usar alguns de seus mais lucrativos personagens de quadrinhos nos cinemas, como Homem-Aranha (vendido à Sony), Quarteto Fantástico e X-Men (vendidos à Fox).


A ironia é que a Marvel, sem seus medalhões, começou a apostar em personagens famosos nas HQs, mas não tanto fora delas, como Homem de Ferro (sua primeira empreitada, em 2008). E a coisa de certo! Reergueu a carreira de Robert Downey Jr. e alavancou o Vingador Dourado ao primeiro escalão dos heróis na cultura pop (sério, nas HQs ele é bem um fdp narcisista e manipulador, não esse adorável mimado dos filmes).


Mas a questão aqui é como a Disney/Marvel vai se virar tendo de volta seus pesos pesados, já que seu universo cinematográfico está bem fundamentado nos não-famosos. E não é só questão de adicionar que tá tudo certo. Deu certo com o Homem-Aranha, porque o personagem simplesmente nunca tinha sido mencionado até esse acordo que o trouxe até os Vingadores.


Mas com o universo mutante a coisa se complica mais. Não só pela zona que é a cronologia dos filmes (personagens que mudam de ator, cara, etnia e idade de um filme pra outro), mas por uma política que só posso classificar como birra, por parte da Marvel.

Acontece que não tendo os mutantes à disposição (Wolverine, X-Men, Deadpool, Magneto, etc), a Marvel Comics (quadrinhos) fez uma verdadeira 'limpa' em seu conteúdo mutante. Mercúrio e Feiticeira Escarlate continuaram irmãos (porque também fazem parte do universo dos Vingadores), mas deixaram de ser filhos mutantes de Magneto e sim, humanos geneticamente modificados, filhos de ciganos, por exemplo.

Muitos mutantes fora mortos, desapareceram ou tiveram suas origens alteradas pra deixarem de ser mutantes. E sabe porquê? Porque não era interessante para a Marvel investir no sucesso de uma franquia lucrativa que não lhe traria grana e sim para outro estúdio, no caso, a Fox, no caso, recém comprada pela mesma Disney que comprou a Marvel há alguns anos.

Isso causou alguns acertos como o investimento em franquias totalmente desacreditadas, como os Guardiões da Galáxia. No estilo franco-atirador, a Marvel levou fé e se deu bem com os próprios Vingadores, que não eram tão badalados assim nas HQs (não no nível da Liga da Justiça, da DC/Warner). Aliás, graças a esse universo, nasceram até os Agentes da S.h.i.e.l.d, liderados por Phil Coulson, personagem criado exclusivamente para o cinema e que agradou tanto que já foi incorporado aos quadrinhos.

Agora é que são elas: A Marvel tanto fez para sufocar os mutantes que até investir em absurdos, como substitui-los pelos Inumanos, ela fez... Mas, e agora que os filhos do átomo voltaram? Até o Quarteto foi posto de lado e separado nos gibis, pra nã alimentar a concorrência... Aguardemos os próximos capítulos.



PS.: Com a compra dos estúdios Fox, pela Disney, agora temos, num mesmo conglomerado: Fox (Os Simpsons, Family Guy), Marvel (Vingadores, X-Men), Lucasfilm (Star Wars, Indiana Jones) e Pixar (Toy Story, Os Incríveis), sem contar com a própria galera do camungongo que possui um cachorro de estimação e anda com um outro cachorro e um pato. 

Cuidado pra não descobrir que aquele seu vídeo bêbado na festinha também pertence á Disney. Ou ao vereador Waldisney.


PS²: Se eu fosse o Pateta, denunciava o Mickey por escravizar um da minha raça. Se bem que se eu fosse o Pateta, não perceberia por ser muito... er... Pateta. Rá!