Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Requiem para meu amigo canino

Meu querido Ralph, mais de 16 anos de amizade. Eu ainda era adolescente e hoje já passei dos 30 e ele sempre esteve ali pra me receber com festa quando eu chegava em casa e seu companheirismo em guardar a porta do meu quarto enquanto aguentou subir escadas. Passou por tanta coisa e superou que a gente até esqueceu que a vida tem dessas coisas. Chegadas e partidas. Perda dolorosa, mas a vida é assim, um dia a gente se vê.

American Dad, assim como Os Simpsons e Family Guy, NÃO é um 'desenho animado', mas sim uma 'série animada'. Mas qual é a diferença? Bem, um desenho tem aventura, ação, humor, tudo num clima bem leve, perto dos temas abordados nas séries que acabei de mencionar. Política, sexo, drogas, violência e relações interpessoais de modo geral permeiam essas séries, pois são, na verdade, sátiras a algum cenário da vida real (família "tradicional" estadunidense, geralmente).

Então, entrando (UIA!) direto no assunto, estou aqui pra falar do episódio 14 da 8ª temporada de American Dad. Steve cisma que quer ter um cãozinho de estimação e Stan reluta em deixar porque lembra que na infância, ele tinha um cachorro que amava, mas foi sacrificado e isso causava receio nele em se apegar novamente a outro bicho. Bem, ele acaba permitindo, mas se mantém distante, até que o novo bichinho se aproxima e eles formam uma grande amizade... até um balão de ar quente cair sobre o pequeno cão Kisses.


O veterinário recomenda a eutanásia, já que o animal não seria mais o mesmo e viveria em sofrimento. A família aceita com tristeza, mas Stan o leva escondido a uma veterinária que promete salvar seu pet. Ela até que salva, mas o cachorro vira um remendo só. Aparelhos, peças esportivas e sei lá mais o que formam agora o cachorro que nem enxerga mais, nem age como um cão. A partir daí, a família insiste para que Stan deixe-o ir em paz, pois aquele não é mais seu cachorro, apenas um corpo que sofre sem descanso.

Dado um momento, Stan 'explode' o pequeno arremedo de Kisses, para que finalmente aceite a partida do cachorro. O interessante é que nesse momento, a animação vai para o 'céu' dos cachorros, e Kisses se vê novamente do jeito que era antes do acidente e, para sua surpresa, no lugar do carona na lancha do antigo cachorro de Stan. Eles conversam (sim, como os animais da Disney) e Kisses descobre que ali ele poderá paquerar, passear e fazer o que quiser. No final do episódio, surge a foto de um cachorro com uma dedicatória 'in memorian' e fica nítido que esse episódio foi idealizado por alguém que passou por esse drama de deixar a vida seguir seu fluxo.

Bem, quem me conhece, sabe que passei por isso bem recentemente. Meu melhor amigo se foi depois de um tempo lutando contra um sofrimento grande. Ralph sempre foi muito forte e resistente e agitado. Mudar para um Ralph um pouco mais calmo, mas não menos enérgico, foi natural, ele tinha idade (16 anos e meio), mas ultimamente ele vinha sofrendo, gemendo de dor e definhando. Estava pele e osso e já dava sinais de que era só uma questão de tempo até que tivéssemos que nos despedir. Na hora que cheguei em casa e ele não estava, recebi a noticia. 

A montagem tá meio defasada, afinal é de 2012.

Imediatamente após o choque, lembrei desse episódio de American Dad e, enquanto perambulava na internet, achei o poema Os Bichos Também Vão Pro Céu, de Carla Elísio e achei pra lá de oportuno. Segue:

escada para o céu com dois cachorros subindo

O céu é um lindo paraíso;
Que recebe a todos com amor!
Independente do ser;
Da raça e da cor!

Recebe qualquer bicho;
Após a sua partida!
Pois com ou sem asas;
Também são seres com vida!

Muitas vezes são amigos;
Fazendo-nos companhia!
Mesmo sendo irracionais;
Deus protege os animais!

Todos sem distinção;
Cada um com o seu papel!
Merecem a nossa atenção;
Pois os bichos também vão para o céu!


Poema publicado em: www.gostodeler.com.br

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Hipocrisia, inveja e recalque: Novos conceitos?


Já repararam como algumas palavras são usadas para muitas situações diferentes? O vocabulário limitado tem uma conseqüência esquisita: A lógica simplista. Coisas, por exemplo, como a palavra discriminação. Fora de contexto, qualquer idiota se vê contrariado e acusa discriminação. Não importa o caráter excludente e os grupos a que estão sujeitos. A pessoa pode ter tudo de bom de material em sua vida, mas se não tiver um negócio a mais: DISCRIMINAÇÃO! Lembre do Quico (aquele mesmo, da Dona Florinda), que fica injuriado por sua mãe permiti-lo comer ”apenas” 18 dos 20 biscoitos habituais. Percebe a lógica simplista? Pois bem, essa tendência, em tempos de redes sociais, meios de comunicação, internet e informação über-rápidas, essa prática corre mais rápido que gírias da moda. Vamos a algumas dessas palavras banalizadas e de significados simplificados (algo deturpados também), na verdade, as principais e mais usadas pela galerinha que mais posta na net.


Hipocrisia: Hipócrita é a pessoa que caga regras para os outros que ela mesma não segue. O moralismo caminha agarrado, por exemplo, quando você diz que é preciso amar ao próximo, mas pragueja qualquer um que te contrarie. Mas, hoje, hipocrisia se tornou apenas discordar de alguém que se acha dona da razão. A pessoa falou, não importa que merda de senso comum e você discordou. HIPOCRISIA! Recebi uma resposta recentemente quando defendi que Pitty está certa ao falar que a mulher é quem decide sobre si e o julgamento do homem não pode interferir. Li algo como ‘não sejamos hipócritas, a mulher tem que se dar ao respeito sim’. Caras, eu não sou hipócrita, eu realmente acredito que a mulher é dona de si e o machismo que se rasgue. Vou concordar com esse senso comum ultrapassado pra ser aceito por quem eu nem respeito a opinião? Minha jiromba que eu vou! Então, cai o mito, hipocrisia não é discordar da mente rasa, também não é aceitar se rebaixar aos senso comum pequeno pro hipócrita se sentir identificado. Próximo.

A carência é tanta, que se sentir invejada é um elogio para muitos.

Inveja: Invejar costumava ser aquele incômodo que muita gente sente por achar que deveria ter algo que outrem tem. Seu vizinho comprou aquele carro maneiro e você não, você se incomoda com isso como se ele tivesse feito pra te provocar, pra te humilhar, mostrar que você é menos que ele... INVEJOSX! Só que, olha a surpresa, basta você estar no lado oposto a alguém e já se torna invejoso. Se fulano quer julgar os outros e você critica essa tendência moralista, você já ganha a alcunha de invejoso. Se duas pessoas discutem e se xingam, é natural imaginar que as duas vão se xingar velada ou abertamente de invejosas. Pessoas que te criticam, todas invejosas... não importa se você esqueceu a auto-crítica no porta-malas do carro novo do seu vizinho.


Opinião: Essa é das boas. Opinião é um conceito que você forma diante de uma situação, experiência, enfim... uma reação sua. E isso é direito seu. Mas o fato de você ter direito à opinião não desobriga o restante do mundo de ter a sua própria, nem obriga a todos concordarem contigo. É comum ver pessoas falarem, depois de uma opinião contestada, “mas é minha opinião”, como se fosse uma carteirada do tipo ‘agora você não pode questionar’. Ela é sua, mas pode ser uma bosta mesmo assim. Não se engane se usando como referência do que há de mais legal no mundo. E uma diferenciação, enquanto é tempo, direito à opinião é universal, mas sua opinião, a peça pronta, essa não é livre de contestação só porque você quer. Aprenda a contra-argumentar, pois é aí que você mostra seu conhecimento e certeza do assunto. Só falar e ficar agredindo é sinal de que você decorou algo e não soube desenvolver.


Recalque: Recalque era pra ser, popularmente, algo relacionado a uma reserva quanto a algo. No melhor estilo ‘gato escaldado’. Mas, a banalização – sempre ela – transformou isso num xingamento quase que exclusivo da mulherada. Uma variante da ‘invejosa’. Chegou a dona se achando diva (outro termo utilizado sem limites ultimamente) e você não deu a mínima, ou comentou que aquilo era desnecessário? RECALCADA! Você não pode não achar uma pessoa o máximo só por ela precisar disso em sua auto-estima, você precisa enaltecer as pessoas só porque elas querem ser estrelas de redes sociais. Caso não, seu recalque te impediu de ver a luz. Aceita que dói menos. Rá!


Fato: Fato é fato. Dah! Um acontecimento consumado. Essa até que já tá meio que fora de moda, mas vale a menção. Contra fatos não há argumentos, ou seja, fato é um registro da realidade, é a própria verdade concretizada. Pegou um ônibus e ele quebrou? FATO! Pegou o copo com pressa e ele caiu? Fato? Sacou? Mas, há algum tempo, muita gente perdia a noção e emitia bizarrices como: “Amanhã é sexta e eu vou me divertir #fato”. Mas hein?!? A brincadeira é só amanhã e já é fato? Fato futuro? Minority Report? Gente, vamos combinar, fato só pode ser passado, né? Do contrário ainda não é fato ou nem vai ser. E quando tinham as variações #fatão, #fataço e essas coisas? Prefiria beber água.


As pessoas estão tão rasas e imediatistas que não aceitam procurar saber um pouco mais sobre um assunto. Reproduzem as palavras, muitas vezes, nem esbarrando em seus significados originais. É o que eu falei no Facebook outro dia. Não existe, na minha opinião, moralismo, nem falso moralismo, existe carência afetiva e identificação dessa gente com seus pares por meio do que lhes é comum: O julgamento daqueles que não os paparicam.

domingo, 30 de novembro de 2014

Chespirito, o Chaves (1929 - 2014)


"Chespirito" foi um apelido dado a Roberto Gómez Bolaños por Agustin P. Delgado, diretor de cinema, pelo fato de o artista ser comparado a um “pequeno Shakespeare”, por sua versatilidade e inteligência. Nem precisaria falar mais nada, mas como você, saganauta (saga o quê?!) sabe, eu não falo pouco. Nem escrevo pouco.


Bem, ele foi escritor, roteirista, ator e mais uma gama de talentos e funções que não cabe aqui ficar enumerando. Basta ver que o cara começou escrevendo e atuando em alguns quadros, dali, foi desenvolvendo personagens, recrutou alguns amigos e fez um universo próprio que eu, como nerd (UIA!) só posso comparar a editoras como DC Comics e Marvel Comics. Num ambiente mais próximo de sua arte, diria que está para um Chico Anysio mexicano – ou vice-e-versa – mas o fato é que o eterno Chaves fez mais do que personagens cativantes. E eu vou dizer porque já, já apenas usando a memória afetiva, por puro calor da emoção de sua despedida (portanto, quem quiser lembrar, comentar aqui ou no ‘feici’, esteja convidadx).


Ele ensinou verdadeiras lições de moral. “A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”, “as pessoas boas devem amar seus inimigos” e outras, que até já citei aqui no blog, como aquele texto com momentos de dar nó na garganta. Mas, pense comigo, amigx, ele também criou personagens femininas inteligentes, fortes e independentes, numa época que tinha tudo pra cair no estereótipo da mulher “de TPM eterna” ou personagens masculinos clichês... Não, não, ele criou uma menina esperta demais para seus amiguinhos, uma dona de casa viúva com garra pra criar um filho sozinha e ainda sonhar com uma nova vida amorosa e até uma vizinha temporária que cuidava de uma sobrinha sozinha. Sim, ele foi feminista, abordou mais de uma vez a emancipação feminina – que vinha crescendo desde a década anterior a suas séries mais famosas. E não te esqueças das músicas. Se você é jovem ainda, amanhã ainda se lembrará (achou que eu ia declamar a letra?).


Ele nos mostrou que por trás de toda a ignorância de um homem viúvo, havia o amor por uma filha que perdera a mãe ainda bebê, e que ainda tinha pique pra orientar, à sua maneira, um menino de rua que foi parar na vizinhança, dando voltas em seu senhorio, verdade, mas, sei lá, sendo pai solteiro, sabe lá como eu seria naquelas condições. Nos apresentou famílias completamente disfuncionais – ainda mais se você parar pra pensar no cenário social dos idos de 1970 – que em nada se pareciam com esse modelo moralista de ‘família tradicional’. Pai viúvo com filha, mãe viúva com filho e namorado, pobres, ricos e emergentes falidos, todos convivendo a ponto de viajarem juntos e se reconhecerem como uma boa vizinhança.


Chaves foi – e é – muito mais do que estereótipos do terceiro mundo. São a representação deste. A humanização deste mundo, que, apesar de não ser aquele idealista modelo de american way of life, está aí pra nós, sobretudo no Brasil, um dos países onde suas séries fizeram e fazem mais sucesso por gerações, nos últimos 30 anos. Eu, particularmente, sou filho de uma configuração “alternativa” de família. Pais separados, mas amigos, com amiguinhos com pais casados, filhos de criação, irmãos de consideração... enfim, fácil identificação e uma visão própria do menino Chaves (que se chama originalmente El Chavo, ou seja, o moleque, em tradução livre). Continuo me emocionando só de lembrar daqueles momentos que enumerei em outro post, só pra registrar.


Apesar de gostar mais do Chapolin, por questões nerds (lembra, eu sou um nerd multifacetado, Rá!) por causa das aventuras mais variadas, Chaves me emociona nas relações entre seus personagens. Lembra muito o subúrbio onde vivo, nasci e me criei. Pessoas diferentes, amigas, barracos, churrascos, mas, no fim do dia, todo mundo tá ali. Claro, uns desafetos, nada pode ser perfeito como a ficção, mas a ideia toda está ali. Tipos diferentes, frases características, mas também uma amizade, um sentimento de ‘conta comigo’ que permeou minha infância e até hoje gosto de assistir.


Não à toa, sou da geração Chaves, aquela que cresceu conforme a audiência da série, que estreou no SBT quase ao mesmo tempo que eu neste mundo, então, junto com muitas outras coisas, foi muito presente nas influências externas e midiáticas da minha vida. Roberto Gómez Bolaños foi um gênio. Criou tipos e contextos que até hoje estão no subconsciente popular da sociedade e nos trouxe muita alegria. Fica sua obra, porque é aquele clichê, né? O artista não morre, continua vivo em nossas lembranças, em sua obra. Muito bom parar pra refletir sobre isso e ver que tanta coisa boa aquele infantonerd juvenil aprendeu com ele. Com tanta besteira que poderia entrar nessa cabecinha de nós todos, fiquei com suas frases de efeito, a mania de olhar para o nada, como se fosse uma câmera, diante de uma situação infame e o próprio gosto por piadas infames.


Pra não terminar triste e melancólico – até porque já basta esse clima de final de ano e papais noéis rebolativos saxofonistas, aqui vai uma piada: Qual o animal que come com o rabo? Não sabe? TODOS! E porquê? Não podem tirar o rabo para comer!



Rá!    

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Frases de pseudo-defesa do racista


Vamos separar aqui alguns clichês reaças pra discorrermos sobre o assunto? Caso tenha faltado algum, fique à vontade pra sugerir outros que, dependendo do montante, eu produzo até uma segunda parte, ok? Essas são as frases que eu mais ouço e leio por aí quando estou exercendo minha miitância ou apenas alguma pesquisa pra me equalizar na informação. Pensei em fazer uma cartelinha, tipo bingo, pra você ir marcando cada vez que ouve essas atrocidades, mas outra hora eu vejo isso. Rá!

"E eu tenho culpa por ser brancx?

Você chega prx reaça e cai na besteira de tentar explicar o que é racismo. Fatalmente, precisa falar que é um sistema de dominação estabelecida pelo europeu, onde o caucasiano criou pra si uma situação de privilégio por ser caucasiano à medida que detona o negro, por ser negro. Aí, elx sai com essa: “E eu tenho culpa por ser brancx?”. Não sei vocês, mas eu desanimo ali mesmo. Broxa toda minha vontade de conversar, caras. Não tanto pela ignorância, mas pelo reconhecimento velado de que a pessoa sabe que goza de uma situação diferenciada, mas é tão avoada que nem percebeu isso. Deve ser triste viver assim, no automático, reproduzindo frases sem ter pensado nelas. A pessoa branca quis me convencer de que eu vejo racismo em tudo, e fala como se eu tivesse algum recalque por ser negro e não branco, com ela. Já demonstrou seu complexo de superioridade aí mesmo, filhx. Não falo mais nada.

“Hoje em dia não se pode fazer piada de preto que chamam logo a gente de racista”

Essa é das boas. Eu também não poderia enfiar a mão na cara de uma cavalgadura dessas sem responder por agressão, sendo mulher, não poderia agredir sem cair na Lei Maria da Penha e não poderia fazer nenhum ataque à religião, sexualidade ou qualquer outra condição social alheia sem pegar muito mal. Pensando bem, em que mundo esse ser vive onde o legal é maltratar as pessoas e quem exige respeito é o chato? Vai viver pra sempre na sexta série mental fazendo comentário pejorativo com os outros pra se sentir menos medíocre? Cresça, reaça.


“Vocês vêem racismo em tudo”

Sim, vemos racismo em tudo. Machismo em tudo. Homofobia em tudo. Não existe o não racismo, não existe um mundo onde não sejamos discriminados. Não existe um mundo onde um atleta branco, rico e famoso seja xingado por sua etnia predominante e as pessoas ainda achem que isso é normal. Não existe lugar onde um branco chegue e seja tratado como empregado e mandado pro elevador de serviço, visto como bandido ou que as pessoas se afastem se agarrando a seus pertences. Brancos não são presos só por serem brancos andando na rua. Isso tudo é coisa de preto. Olha pra TV, pras revistas, pros comerciais diversos... Diga quantos negros você vê ali sendo apenas pessoas. Não, você não vê isso. Então, sim, racismo está em tudo. Não é porque não tivemos conflitos armados ou um grupo racista famoso e explícito que não temos racismo em toda parte aqui. Só não vê quem é conivente com essa prática.

“Se eu colocar uma camisa 100% branco, vão dizer que é racismo”

Essa é uma variante do ‘porque não tem dia da consciência branca? Isso é racismo inverso’. Bem, não há camisa 100% branco porque não há parada do orgulho hétero, , também pelo mesmo motivo não há dia internacional do homem e nem se comemora o dia do patrão. Lemas como 100% negro não são lições de biologia e nem desaforo contra não negros. É apenas uma afirmação de identidade num país onde há a população negra mais numerosa fora da África e, no entanto, vê seus cabelos ridicularizados, seus narizes e lábios motivo de alegorias em carnaval, tem sua religião ‘endemonizada’, onde sua etnia predominante é motivo de piada e essas coisas. Talvez seja difícil pro branco ou o não negro entender, pois, seu grupo não é discriminado dessa maneira, logo, eles não precisam de afirmação. Onde chegarem, serão ‘normais’. Serão ‘aquele de camisa listrada’, ‘aquela de cabelo preso’ ou ‘aquela perto do carro vermelho’. Nós não, nós seremos ‘aquelx pretx ali’. Por isso precisamos dessa afirmação, principalmente pra passarmos isso para aqueles que acatam o modelo eurodescendente e perigam repassar essa baixa auto-estima a seus filhos.

“Cotas raciais são favorecimento, o problema é social”

Essa é uma das minhas preferidas (?!), pois sempre pergunto o porquê de falarem isso e os argumentos NUNCA mudam. Depois de um tempo, percebi que não era só a falta de conhecimento, era a iminência de uma confissão de racismo, mas orgulhosa demais pra retirar o que disse. Por exemplo, dentro desse contexto, vemos as maiores atrocidades. Dizem que as cotas vão dar um passaporte ao negro para a formatura, dizem que vai tirar a vaga de quem estudou por mérito próprio (olha só, meritocracia e racismo andando lado a lado), dizem que cotista entra por favor e não por estudo, descolam logo um antepassado negro pra justificar que não precisaram de cotas ou pra dizer que não há etnias, somos todos mestiços. Depois de tanta lambança, eu explico que são vagas adicionais, que existem cotas para alunos de escolas públicas também e que problema social é um termo genérico como ‘doença’. Vivemos numa sociedade, jovem, TODO problema que acometer o grupo ou UM grupo será social, porra. Para de falar besteira. No mais, cotista tem que estudar tanto quanto o não costista, vai disputar com a ampla concorrência e é uma medida 125 anos atrasada. Só porque passou muito tempo, não quer dizer que tenhamos que deixar pra lá. É direito nosso enquanto brasileiros. E o pior, sempre que eu vejo alguém falar essas besteiras, é gente que não precisa de cotas. Apenas não gosta de ideia da exclusão do negro ser revertida.


“Não somos divididos em raças, somos todos humanos”

Essa eu vejo muita gente dizer. Tem um palhaço (que descanse em agonia fora do meu Facebook) que nem tem argumento. Sabe o tipo de pessoa que acusa o negro de egocentrismo e vitimização ao mesmo tempo que posta fotos “sensuais” pra se mostrar disponível para atividades fogosas? Pois é, o famoso contra-ataque. Se você é carente de atenção, não vai querer ver ninguém tomando os holofotes sem pensar que é uma afronta, não é? Pois é isso, essa desqualificação das etnias nada mais é do que uma maneira de não querer ver o coleguinha tendo o reconhecimento que o outro não precisa reivindicar, pois já nasce com. Sem falar no racismo, né? Afinal, porque se incomodar tanto com a militância alheia, se a pessoa já postou seu orgulho em ser branco? Sei lá, eu não me incomodo com lutas alheias, aliás, até apoio, homofobia, machismo, antissemitismo... tamos aê pra acabar com toda essa opressão. O fascista se incomoda conosco.

“É só uma piada, você quer a volta da censura”

Dizer que algo é só uma piada é o mesmo que dizer que uma TV é só um aparelho. Digo, não explica nada, não defende nenhum ponto de vista e nada mais é do que uma tentativa de vencimento pelo cansaço na conversa. Uma piada é uma peça de comunicação. E, como tal, ela não é imparcial, ela tem uma ideia residual. Um jornal pode publicar até a prisão de seu patrocinador, mas vai fazê-lo de modo ameno, sem acusações, e é aí que se esconde a falsa ideia da imparcialidade. Pra não jogar contra, joga-se de bola baixa. Agora, quando é pra atacar um desafeto do patrocinador, aí, vão com tudo e o acusado vira o anticristo. Piada é assim. Ela pode ter o intuito de fazer rir, mas é a ideologia do piadista ali. Se é racista, seu dono o é. E volta de censura não tem nada a ver com isso. Censura era quando o governo ditador controlava o que podia e não podia ser publicado de acordo com sua repressão ideológica. Criticar um idiota por não conseguir fazer piada que não ofenda não é censura. É até um ato de justiça social.

“O negro que vendeu o negro”


Eu disse que o papo de cotas era meu preferido? Esquece! Esse papo de que o negro é que produziu o racismo e a escravidão é que eu gosto mais de contestar. Veja bem, saganauta (hein?!), segundo esses entendidos em história, o negro pegou e vendeu seu próprio povo, depois pulou no navio, veio para o Brasil (se não chegou já morto), levantou esse país no braço, trocou umas chibatadas por aí (possivelmente, o início do sado-masô) e... sei lá, criou o Samba e a macumba, né? Auehaiuheauiehiau. Só rindo desses caras. É tipo quem embarca nessa onda de Princesa Isabel a boazinha e Zumbi o escravocrata. Ignoram que comunidades em peso ajudavam quilombos a resistirem. Fico pensando no que o português fez, apenas ficou olhando como quem vê o Chapolin lutando com uma múmia de trapos e ainda falou ‘oras, Joaquim, estes crioulos estão a agir da mesma maneira que aquels índios, desmatando tudo e nós apenas a olhar, coitadinhos de nós, que atravessamos o oceano pra vê-los acabarem com suas terras’. Rá! O colonizador virou expectador passivo da história e não o opressor que violentou vidas por gerações, né? Sei, só observo

"Não sou racista, tenho amigos pretos"

Olha, essa foi muito reproduzida ultimamente e ganhou uma variante. Depois da patricinha racistinha ter ofendido o goleiro Aranha e a globo ter descolado amigos pretos pra defenderem elas todas (a patricinha e a emissora), veio Silvio Santos e falou 'com esse cabelo' pra uma atriz de 11 anos quando esta falou sobre planos de se tornar cantora ou continuar atriz ao crescer. Ela deu um belo comentário sobre seu amor por seu cabelo crespo e eu tive ainda a oportunidade de ver um coió dizer que Silvão não foi racista porque a menina é contratada do SBT. Caras, taí a resposta do racismo velado, né? Então, pelo raciocínio (?!) do bastardo, nenhum senhor de engenho era racista, né? Todos os escravos deles eram pretos e nem batiam em todos eles. Oras... E pra terminar, se você tem amigo preto e é racista, você é um ser humano ainda pior. Não tão pior do que o preto que te atura falando merda.

Racismo, preconceito e discriminação não são a mesma coisa


Racismo, preconceito e discriminação, em geral,
É uma burrice coletiva sem explicação, afinal
Que justificativa você me dá pára um povo que precisa de união (...)

Pra falar sobre consciência negra, nunca deixo de lembrar da primeira canção direcionada a criticar o racismo que eu parei pra esmiuçar e começar a entender aquele fenômeno que, estranhamente, apenas eu passava, quando em determinados locais onde eu era claramente negramente minoria. Digo porque sou filho da classe média remediada, confortável, daquele tipo de negro que nunca passou necessidade, sempre teve acesso a escolas e faculdades particulares, cursos extra-curriculares e outros confortos que fazem de mim minoria absoluta, não por ser negro no Brasil (que somos mais de 50%), mas por ser negro em ambientes comumente caucasianos. Falo da letra de Lavagem Cerebral, de Gabriel, O Pensador. Lembro que eu tinha uns 11 anos e vidrei naquele estilo de cantar tão direto, sem muita poesia, havia uma certa fúria irônica que me cativou pela pré-adolescência iminente e contestações auto-contidas (sem falar nos casacos com capuz que gosto até hoje, rá!). 

Tenho esse vinil até hoje.

Pulando rapidamente para alguns meses atrás, quando um camarada das antigas me questionou sobre o assunto, achei que valia a pena transformar aquela rápida troca de mensagens facebookianas em texto e o dia não poderia ser mais oportuno. Pois bem, você aprendeu nas aulinhas de moral & cívica (tá velho, hein, veio!) um monte de baboseiras e nem sabe. Tanto muitos não sabem que repassam aquelas bizarrices como verdades. Por exemplo, o negro “veio” para o Brasil onde criou o Samba e outras distorções sutilmente descaradas que nos impediam de ver a real situação. Por isso que tem tanta gente achando que fazemos alrde à toa quando denunciamos o racismo. Nunca conseguiram tirar o papelão com paisagem bonita da frente do rosto pra ver o mundo real. Daí, lembrei que o referido amigo me perguntou a diferença ente racismo, preconceito e discriminação, o que me fez lembrar logo da canção de Pensador, O Gabriel (hein?!) e me trouxe à caneta (TECLADO!)  para devidos esclarecimentos enegrecimentos. E vamos fazer isso na ordem que o famoso rapper enumerou (até porque, não sei mais falar em outra ordem sem sentir que há algo de errado no campo da força jedi, de tão entranhada que a canção está no meu ser (UIA!)).


Racismo: É o sistema de poder entre raças. Eu sei, eu sei, você vai cuspir que #somostodoshumanos, mas chamando de raça ou etnia, não somos todos iguais, mesmo que sendo todos humanos, ok? Racismo é quando uma raça (europeu, por exemplo) estabelece que precisa dominar outras (indígenas e africanos, por exemplo) e se sentir superior. Simples assim. É por isso que não há racismo inverso nenhum. Pro negro dominar o branco, teríamos que destruir nossa linha temporal e acessar uma viagem no tempo pra reconstruir a realidade de modo a ver a colonização partir da África para as Américas utilizando mão-de-obra européia. Aí sim, veríamos o resultado do racismo praticado por negros pra cima do resto do mundo. Não adianta vir dizer que sofreu racismo inverso porque foi xingado na fila do pão, ok? Xingar, qualquer um xinga de tudo. Eu já fui xingado de ‘viado’ e nem gay eu sou. Logo, não posso dizer que sofri homofobia, sacou? Não banalizemos conceitos pra não ficarmos com cara de babaca nem a bunda exposta na janela.

Preconceito: É o ato de formar uma opinião sem base de conhecimento para tanto. Sabe quando você só ouve uma música de um artista e já quer falar se ele é bom ou ruim? Então. Não adianta a maior certeza que você tiver, se não ouviu o restante da obra do artista, sua opinião é apenas um chute. Preconceito é isso, um chute. E, em se tratando de relações sociais, sempre é um chute no saco. Tiro no escuro. Aliás, no negro e em qualquer outro grupo social. Na verdade, o preconceito não é sinônimo de racismo e aparece em qualquer assunto. Veja outros exemplos: “Favelado” é mal educado, gay é promíscuo, homem não presta, artista é drogado, etc. Preconceito é uma corruptela daquele jogo de palavras ‘pré-conceito’, ou seja, ao passo que um conceito é uma definição – exata ou aproximada – de algo, o pré-conceito é justamente o que acontece quando você formula essa definição sem ter observado o bastante pra diminuir as chances de falar merda algo que fuja à realidade.

Discriminação: Discriminar é distinguir, separar, destacar e por aí vai. Num âmbito geral, nem é uma palavra pejorativa, pois você pode discriminar o trigo do meio do joio, saca? Mas, estamos falando em relações sociais, onde discriminar é dar um destaque a alguém ou a um grupo de maneira que o(s) afetado(s) serão destratados ou ignorados. Isso, a exemplo do preconceito, também não é “privilégio” do negro, pois deficientes são discriminados, gays, roqueiros e muitos outros grupos.


Bônus:  Estereótipo: O estereótipo vem da padronização genérica. É a formulação de um tipo específico de determinadas características que vão ser a base de julgamento das pessoas que acatarem essa programação de suas mentes. Há muita gente aí que acha que precisa ter uma referência. Eu digo assim: BULLSHIT!!! Foi por passar anos em frente à TV que eu também achei que nunca seria considerado bonito, inteligente ou legal. Eu nunca fui aqueles estereótipos da TV, nem da capa da revista e nem era tão caricato quanto os estereótipos em que poderia me encaixar, como o negro engraçado da turma.

Do estereótipo, vem o julgamento de bom/mau, feio/bonito, etc. Desse julgamento, vem o preconceito, que gera a discriminação. E quando se trata de negritude, de juízo de valor de acordo com a etnia predominante, esse processo se chama racismo. É só reparar, fazer piada com preto sempre é mais fácil, sempre é mais fácil achar que o bandido é o preto, o favelado é que é significância de atraso social na cabeça da sociedade hipócrita, que acha que o cara vai pra favela porque quer e não a sociedade que criou essa situação. São os ritmos negros que as pessoas atribuem ao sexo banalizado, falta de planejamento familiar e é a religião afro que é vista como suja e demoníaca.


Racismo, preconceito e discriminação não são a mesma coisa, assim como música, dança e canto também não, mas esbarram na mesma matriz de conversa (já fui melhor nas analogias).

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Cleidison e a representatividade afirmativa da negritude

Não demorou nada para aparecer Cleidison, o menino de 10 anos, aluno de quinta série, que coloriu de marrom personagens da Turma da Mônica que ilustravam a capa de uma prova aplicada pela profesora Joice Oliveira Nunes.

Cleidison afirmou que estava cansado de só ver personagens brancos por aí, passou a mão no lápis de cor e “resolveu o assunto” (Rá!). Ele ainda afirmou que não foi a primeira vez que fez isso:

Já fiz isso algumas vezes, mas nunca na escola, muito menos numa prova. Mas estou cansado de só ver personagens brancos. Sou muito orgulhoso de ser negro — disse Cleidison ao jornal Extra.

A mãe, Maria Inês Sena, é só orgulho pela atitude do filho. E não é pra menos, se já é lindo que alguém tenha uma atitude positiva, afirmativa e ousada como essa, é ainda mais gratificante ver um garoto de 10 anos com tamanha noção de sociedade.

É aquele negócio, todo negro sabe que é negro, por mais óbvio que possa parecer, não importa se classe média, classe média baixa, pobre ou favelado. Só que a grande mídia e até veículos acadêmicos, como escolas, tendem a te fazer introjetar o preconceito como natural. Aprendemos nas escolas que o negro “veio” pra cá pra ser escravo, aprendemos que o índio só “perdeu a vaga de escravo” porque era preguiçoso e interesseiro e o branco apenas veio aqui descobrir novas terras e nos dar um nome... ah, e libertar o negro dele mesmo e o índio de sua ganância desmatadora. Em momento algum nos é oferecida uma visão crítica de como nossa sociedade se formou. Então, o branco aceita sua “superioridade” (“eu não tenho culpa de ser branco”) e passa a se incomodar com o negro, falando em racismo, quando a natureza já determinou o lugar de cada um.

Isso, ainda bem, está mudando, com medidas para levar ensinamentos sobre a cultura africana, tão discriminada por questões interesseiras de alguns segmentos religiosos e sociais há séculos. Por exemplo, eu tive Moral & Cívica e achava interessante, mas descobri há pouco tempo, que não passou de uma manobra dos governos da ditadura para levar ufanismo ao cidadão desde a mais tenra idade, nos passando essas baboseiras de que o branco foi o bonzinho e o índio foi o mau selvagem, o negro, o rebelde bandido e essas coisas. Cleidison representou muito bem a negritude e o ato simbólico de colorir um dos ícones da infância de muitas gerações há 50 anos e, sei lá porque, ninguém – ou quase – tem coragem de contestar.

Canso de falar aqui sobre as sucessivas – e cansativas – novelas televisivas e seus elencos de 90 brancos com 5 negros pelos cantos, cozinhas, senzalas e sarjetas. Já não assisto TV aberta – em casa – há alguns anos e não me faz a menor falta. Procuro meus conteúdos na internet e, no momento de relaxar, assisto a algum filme ou série, mas aí, já saciei minha vontade de ver pessoas parecidas comigo na tela. Em todo caso, já tive a mesma atitude de Cleidison na adolescência, desenhei personagens próprios, criei histórias próprias, mas nem as minhas foram tão engajadas, fui mais pro lado farofa dos quadrinhos. Cleidison tem meu respeito e admiração.

Comentaristas de ocasião, infelizmente a democracia da inclusão digital dá voz a esses boçais, afirmaram bizarrices como ‘isso é preconceito contra brancos, queria ver se pintassem um personagem negro de branco’. Eu falei isso há alguns meses, seria muito preconceituoso ver um grupo que já é pouco representado, mesmo sendo maioria da população ser pintado de outra cor, mas essa gente não consegue perceber isso, porque não estuda. Só quer se defender. Ô, racista, se você não chorou pelos 4 personagens negros em meio a 400 brancos/dinossauros/vampiros e sei lá mais o quê, não tenta dar uma de luz da razão agora, ok?

Ah, e tem aquele povo que diz que a Mônica foi baseada na filha de Maurício de Sousa, logo, não é racismo... sim, benhê, mas e os outros 400 personagens? Tudo filho do Maurício? Porra, chuchu!

O negro é tão mal representado que até nos EUAses, onde há muito mais espaço para a negritude, apesar de lá ser minoria, há essa priorização caucasiana. Por exemplo, você já deve ter notado qeu a maioria dos poucos personagens negros tem os tais 'traços finos', não é? Então, veja só que o colorista recebeu uma página da revista do Flash e, sem conhecer a personagem, tascou-lhe a branquitude, mas ela é NEGRA! Repare à sua direita.


Escrevi aqui, recentemente, sobre as implicações do novo Quarteto Fantástico no cinema, com um Tocha humana negro e esses comentários babacas que sempre se repetem, mas falsos poetas à parte, estamos aqui pra louvar a atitude muito lúcida e bela de um garoto que representou mais os nossos num desenho do que toda a grande mídia em 150 anos. Exagero? Não, ninguém levanta esse debate por lá. Lembrei de menina Gabriela, filha da atriz Kenia Maria e entiada do ator Érico Brás, que levou questionamentos étnicos para casa e, dali, surgiu o canal 'Tá Bom Pra Você?', pra questionar o posicionamento do negro na TV e na sociedade.


No mais, é isso aí, Cleidison, se todo militante diz que o importante é orientar os nossos a se conscientizarem desde cedo para buscarmos representatividade e respeito, você já tem isso em tão pouca idade. Continue assim! Tamo junto!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Valeu, Cleidison! Desculpa, Dioclécio! Porra, Maurício!

Dioclécio Luz


Em fevereiro de 2010, o jornalista Dioclécio Luz fez uma análise um tanto radical sobre a Turma da Mônica, de Maurício de Sousa. Na época, lembro que fiquei um tanto chocado e vi exageros típicos de quem tenta criminalizar a violência pastelão de Chaves ou Pica-Pau. Fiquei com um pé atrás, pois de exageros assim, nascem aberrações como A Sedução do Inocente, o livro de 1954 que associava quadrinhos à delinquência juvenil (e principal força propulsora da associação Batman e Robin como um casal homossexual e pedófilo (essa segunda parte pelo lado do Bátema). É a mesma coisa que dizer que jogos de vídeo game violentos formam psicopatas e não o contrário (psicopatas se identificam com coisas violentas), então, na época o achei um belo de um paranóico. O negócio é que as coisas mudam. Eu não via o todo, não era militante de causas sociais e deixei de observar o que Dioclécio viu, em vez disso, preferi aderir ao deboche do blog que me inspirou o titulo desse texto. Mas Dioclécio tem mais razão do que percebi há 4 anos, a meu ver. E meu argumento pra justificar minha opinião de hoje em dia é justamente o início de seu texto: “Existe uma certa condescendência por parte da imprensa – e mais ainda da crítica – em relação à Turma da Mônica. Muito provavelmente por razões nacionalistas (...)”. Eu acrescentaria aí as razões comerciais e a programação desde a infância. Quem tem coragem de contestar um ícone infantil? Eu!

Porra, Maurício!


O Porra, Maurício foi uma iniciativa das mais criativas e oportunas. Simplesmente pegaram o texto do Dioclécio como uma visão deturpada e deturpadora da obra de Maurício de Souza e entenderam-no como um observador que tira as coisas de contexto para validar seus argumentos. Agora, gente, na boa, Dioclécio poderia deixar tudo no lugar (como eu acho que deixou) e não ia dar pra sair de algumas questões que eu já, já falo. E o Porra, Maurício vai, ironicamente, me ajudar a justificar o Dioclécio e questionar Maurício de Souza quanto à verdadeira representatividade do povo brasileiro em sua obra tão longeva.

Jeremias, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Cleidison


Bem, esse subtítulo destacou todos TODOS os personagens negros de Maurício de Souza, com exceção de Cleidison, que, graças a Deus, é real. NENHUM mais. E o Cleidison nisso tudo? Porque, por esses dias, um menino da quinta série, o Cleidison, de uma escola em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), pintou com lápis de cor marrom a capa de uma prova, que trazia os principais personagens da Turma da Mônica. “Pintei da minha cor, tá? Cansei desses desenhos diferentes de mim”, disse o aluno para a professora Joice Oliveira Nunes, que já teve sua postagem sobre o ocorrido compartilhada mais de mil e duzentas vezes no Facebook. Como disse a professora: Recado dado.


Fala, Maurício

Aí, não antes e nem depois de aí, surge o autor da turminha da infância de tantas gerações há 50 anos: Maurício de Sousa, o próprio, ou pelo menos,através de sua assessoria se pronuncia por nota à imprensa:

"O menino Cleidison tem razão a partir de sua visão do mundo e do meio.
Por que os personagens das historinhas que ele lê não têm a mesma cor de sua pele?

E corajosamente ele os traz mais para perto de si e dos seus colegas afrodescendentes simplesmente usando lápis de cor.

Saída criativa e carinhosa.

Ele não excluiu os personagens. Ele os trouxe para seu meio.

Sou um dos poucos cartunistas que criou personagens de cor desde o inicio de minha carreira. O Jeremias, que inclusive faz parte de nosso atual show 'Mônica Mundi', junto com Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, foi criado nos anos 60. No show ele mostra as raízes africanas que compõem nossa nação. Depois vieram protagonistas como Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar.

Assim como temos a Samira (árabe), Hiro e Neuzinha (japoneses) e tantos outros dos quase 400 que criei nesse universo.

Impossível contar histórias brasileiras sem essa mistura linda de cores e valores.
(Pra mim não há raça branca, negra, amarela... Pra mim existe a raça humana)"

Conclusão: Tem mais dinossauro do que preto nessa foto abaixo.

Não há representatividade para negros ou qualquer outro grupo que não seja o caucasiano médio. Mas negros são mais de 50% da população. Eles não podem ser tão distraídos.

Então, crianças, o que aprendemos? Que um menino na escola, por ser negro e buscar representatividade, foi muito mais afirmativo do que o maior quadrinista brasileiro. Vamos analisar a nota gostosinha de Maurício?

Sim, o menino cleidison tem razão, mas não foi a partir de sua visão do mundo e do meio, negro no Brasil não é um nicho perifericamente localizado, é maioria da população. Na verdade, foi o pai da Mônica que criou seus personagens a partir de sua visão do mundo que o cercava, tanto que seus personagens mais famosos são caricaturas de suas filhas e alguns traços de pessoas próximas ou dele mesmo.

Sim, ele é um dos poucos cartunistas brasileiros a criar personagens ‘de cor’ (e assim mesmo, com a expressão que estigmatiza), pois é o único personagem negro. Os outros três são homenagens a jogadores de futebol, sendo que dois deles, NEM NA VIDA REAL se assumem negros. Neymar come banana quando o chamam de macaco, na campanha do pessoal do marketing e Pelé fala pra apenas sorrirmos e sairmos de cena diante de uma agressão racista. Ou seja, caricaturas, caricaturas. E ele mesmo já dá o tom da pouca representatividade, pois, no país mais negro fora da África, ele tem UM personagem autoral negro e o compara a UMA personagem árabe e DOIS japoneses, pra dizer que preza pela diversidade cultural num universo de 400 personagens.



Pra ele isso é uma linda mistura de cores e pra ele não há raças/etnias e sim uma única raça, a humana. Simplesmente, o pior e mais cara-de-pau dos argumentos-clichê de quem tenta esconder o pouco caso com um assunto tão sério quanto o racismo. Nenhum debate social ou filosófico, como diz Dioclécio, comparando Mônica a Calvin ou Mafalda, que são reflexivos sobre a humanidade e não tanto com seu próprio mundinho, como alguns personagens de Maurício. Com essa nota, ele praticamente fez a Patricia e disse: '''Não sou racista, tenho personagens negros'''. Sim, Dioclécio não estava tão errado. Não é fora de contexto que se deturpa a obra de Maurício, é olhando tanto o todo quanto com uma lupa que a gente nota fácil como ele faz pra manter o negro em seu lugar de exclusão social nas mídias. Claro, o fato de ter trabalhos ligados às organizações Globo, Editora Abril e essas coisas pode ter influenciado suas decisões editoriais, ou foram almas gêmeas que se encontraram. De qualquer forma...

PORRA, MAURÍCIO!!! PORRA CEBOLINHA RACISTA!!! USANDO FOTOGRAFIA PARA HUMILHAR OS NEGROS, QUE COISA MAIS NAZISTA!!!(Imagem via Erickl )

Porra, Maurício, tudo errado! Já não é representativo com a maioria da população e ainda tenta explicar a diversidade de seu trabalho comprovando que não diversificou porra nenhuma? Porra, Maurício!


Recado dado.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Não vi e não gostei: Sexo e as Nega

Vamos fazer um exercício de divagação aqui? Eu sei, sei que o nome do blog tem justamente essa proposta, mas, as divagações sempre vêm a partir de uma pesquisa que faço sobre o assunto. Não é criação da minha cabeça aleatoriamente, são reflexões acerca de uma pesquisa em artigos, notícias, documentários e essas coisas. Então, vamos ao porquê de eu não precisar assistir a essa nova série “Sexo e as Nega” pra saber que isso não representa nem turista gringo fazendo Black face de nega maluca no carnaval. A saber, eu vou falar ‘as nega’ mesmo, do jeito ‘malandreado’ que o autor fala nas chamadas do programa.


Primeiro, o autor, Miguel Falabella já tem trabalhos memoráveis em seu currículo, tanto como autor quanto como ator ou diretor e até carnavalesco. Vou discutir talento aqui? NÃO. Mas, dentro dessas obras, vamos ao paralelo da situação presente. Miguelito, enquanto autor, tem fama de ser exigente com seus textos (conhecido como rei  dos improvisos na função de ator, detesta que modifiquem o que escreveu) e, como vários autores, tem lá seus queridinhos – alguns até exclusivos, praticamente sua própria companhia de teatro na TV. Porque estou dizendo isso? Simples, lembremos de um recente sucesso dele: Toma Lá Dá Cá, ou TLDC, pra encurtar. Quantos atores negros você viu ao longo de toda a série no elenco principal? Arlete Salles? Eu conto ela... e... bem, mais ninguém. A mesma pergunta ‘teste do pescoço’se aplica  na telinha durante qualquer outra  obra de Falabella (e da Globo em geral, não sejamos implicantes com o cara). Falo do lado autor, pois, teoricamente, o profissional tem maior liberdade de escolha. Pode até parar por aqui e correr em outra aba do seu navegador e começar a pesquisar com seus próprios olhos. Salsa & Merengue, Sai de Baixo, A Vida Alheia, Pé na Cova... vai lá e me diga quantos negros você vê em destaque, pra comprovarmos a boa vontade em se representar a mulher do povo, a mulher negra, a mulher que é mais de 50% da população brasileira e nunca passa da cozinha ou da cama nas obras em geral (a menos que seja Camila Pitanga ou Taís Araújo, com ressalvas).

Tá vendo a negritude bem representada quando o cenário é a família de classe média brasileira?

Segundo, não é uma questão de falar do que não se sabe, pois, numa visão ampla, a Globo e a TV em geral, são excludentes com o negro. Tentam mandar esse migué que não há racismo, mas o tema nunca é abordado seriamente numa novela. Ao passo que tráfico de gente, doenças variadas e situações sociais diversas são expostas e alardeadas com seus prêmios de humanidade aflorada (mas quando falamos em racismo, dizem que é só ficção, não precisam retratar a realidade, vai entender...). Então, sabemos bem do que estamos falando. Lembre, obras como Gabriela ou Tereza Batista (ambas de Jorge Amado) já clarearam bem a mulher hiper-sensualizada da literatura (vide Sônia Braga e Juliana Paes como Gabriela e Patrícia França como la Batista). Obras como as de Aguinado Silva sempre trazem a bela Cris Vianna como a negra possível do filho do patrão. Ela já foi a empregada sexual do filho do patrão em Duas Caras e a humilde quituteira/mãe solteira que se envolvia com o português (olha aí, lição histórica) do quiosque, que a contratava para abastecer seu estabelecimento de comida e investidas carinhosas. Sem contar os gratuitos banhos de balde/mangueira na laje do barraco na comunidade. A mais recente está no ar, a moça é uma ex-passista de escola de samba. Empresária? Advogada? Engenheira? Bah, pra quê? Se colocasse La Vianna como filha do protagonista, teriam que arrumar muitos outros negros para compor seu núcleo, já que uma família na TV só convence se todo mundo for da mesma cor. Por falar em Duas Caras, essa novela ainda trouxe um momento icônico para o racismo institucional brasileiro: A – também bela e talentosa – Juliana Alves interpretando uma ‘periguete’ do núcleo da comunidade que, de repente, se decidia por entrar numa faculdade, por meritocracia e lia ‘Não Somos Racistas’, livro de Ali Kamel, todo-poderoso diretor jornalístico da Vênus platinada, que mantém, ao mesmo tempo, uma contenda descaradamente velada com o movimento negro e essa hipocrisia de afirmar não ser racista, mas não ter um negro por perto no alto escalão e peneirar bem etnicamente os outros setores da empresa.


Mas o papo aqui é Sexo e as Nega. Outra questão, não adianta falar que é uma singela homenagem à mulher negra, a Cordovil (subúrbio carioca) ou uma referência a Sex and the City. Primeiro, Sex and the City se traduz – no meu Inglês de programa legendado – como Sexo e a Cidade. É uma série ‘de menina’, mostrando o cotidiano de 4 amigas cheias da grana e suas desventuras amorosas. Colocar o nome ‘as nega’ já demonstra que o rótulo é intencional e não um acidente. Em Comunicação Social, aprendemos bem cedo que mensagens são bem escolhidas antes que saiam a público. Se fosse pra mostrar a vida das mulheres do povão, guerreiras, resistentes e resilientes, já o teriam feito, já que trocentas novelas são produzidas todo ano. Mas não, pegaram um programa inteiro. UM PROGRAMA INTEIRO pra exibir o que nunca fizeram até hoje? Ah, vá, né? Eu não sou tuas nega pra tu me engabelar assim. Não uma, nem duas, mas quatro QU4TRO protagonistas! O sinhõ abriu a porta da senzala em dia de festa, com certeza, né? Ficaram tão representativos...


Outro tema interessante é o elenco e o autor defendendo que as críticas a esse intento estranho é ‘politicamente correto’, pois, segundo uma das atrizes, a implicância seria também com o termo ‘nega’ em si. Lindas, nunca achei isso, particularmente, pois ‘nega’ é um termo carinhoso, dependendo do tom. A questão não é acusação de racismo por uma palavra (pelamor, mulher, observe as camadas da situação!). Esvaziar o discurso do outro com ‘politicamente correto’ é o mesmo que tapar os ouvidos e gritar ‘lálálá, não estou te ouvindo’. Criancice e pouca vontade de estabelecer um debate sincero e interessante. Não julgo o elenco, todo mundo tem que trabalhar pra se manter e, quem sabe, daí, elas não se destacam e alçam-se a vôos mais dignos. Taís Araújo já foi ‘teúda e manteúda’ de um coronel em Tocaia Grande até virar Xica da Silva e ser um dos nomes mais respeitados em nossa teledramaturgia contemporânea, por exemplo. Não as julgo. Julgo o sinhozinho. Ele tem uns 30 anos de carreira e nunca colocou negros pra fazer mais que ouvir piadas com cabelos, caricaturas estereotipadas e outras ‘coadjuvantices’ bem típicas da casa grande.  


Então, gente, a coisa é por aí. Não assisti, não assistirei, respeito a busca por espaço do elenco envolvido, mas a emissora já me convenceu há tempos que não nos quer lá se for pra sermos gente normal. Não gosto do Esquenta, não gostarei de sua versão dramatizada e não gosto de ser tratado como um turista exótico em meu próprio país, onde não posso ligar a televisão sem achar que estamos na Holanda ou algum outro país onde o negro é minoria. Aliás, onde o negro é minoria, há mais representatividade do que aqui. Peguemos o maior produtor de conteúdo da cultura pop  mundialmente distribuída: Os EUAses. Muitas obras por lá são muito representativas. Fresh Prince of Bel Air/Um Maluco no Pedaço, My Wife and kids/Eu a Patroa e as crianças são algumas das mais famosas por aqui. São negros de classe média, classe alta, são profissionais respeitados, almoçam, usam escovas de dentes e vestem as calças uma perna por vez. São normais e nunca vi alguém reclamar disso, mas as emissoras daqui insistem que somos alegorias de carnaval. Então, o desafio está lançado. Que alguém me mostre depois que estamos todos enganados e que Sexo e as Nega vai ser uma bela representação lúdica da mulher pobre e preta.


É só a gente pensar naquela equação básica da sociedade. Se vivemos num regime machista, onde a mulher é rebaixada a uma serviçal que tem que ficar provando obediência pra ser considerada ‘mulher de verdade’, por outro lado, vivemos num regime racista, onde o negro é rebaixado a um grupo exótico e serviçal que deve obediência para não ser exterminado... Então, a mulher preta, automaticamente vai pra base da pirâmide de juízo de valor social, quando aparece fora da cozinha é armando algum barraco, sofrendo na mão de algum ‘bom malandro’ ou na cama do patrão – ou seu filho. Isso quando têm algum background, pois, é muito comum também a mulher preta aparecer ali na casa grande do empresário e só fazer abrir portas, servir cafezinhos e fofocar da vida de gente rica. Se eles vão de Falabella pra falar da negritude feminina, eu vou de Victória Santa Cruz: Me Gritaron Negra (...) NEGRA (SI) NEGRA (soy)...



 É isso que dá não haver negros com o papel e a caneta escrevendo. E se tivesse, certamente teriam achado algum daqueles 'a folha é contra cotas e eu também', tipo aquela modelo (sei lá de que trabalho que ela fez). Bem, o que usam pra nos diminuir é o que temos orgulho, é nossa identidade. 

Inté.