Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Negro, com quem você se parece?

Quando eu era criança, era comparado a Michael Jackson menino e Cirillo, de Carrossel (versão original).


Quando eu raspava a cabeça, era chamado de Cesar Sampaio e Juan, entre outros.


Quando estive com meu poderoso black, fui chamado de Thalles Roberto e Dante.



Agora, estou de nagô e sou Snoopy Dog, Xande de Pilares e Stevie Wonder (sem contar o clichê sem imaginação "predador").



Já fui comparado a muitos outros artistas, esportistas e personagens. A ironia é que um colega, com quem conversei sobre o assunto, também já ouviu algumas dessas mesmas associações, sendo que não somos parecidos entre nós, muito menos todas as personalidades entre si. Aí, teve o lance da nova mulata  dançarina negra Globeleza, Nayara Justino, associada ao personagem Zé Pequeno (Leandro Firmino da Hora) e estou respondendo até hoje nos comentários de lá a pessoas que acham natural a comparação.


Não é, é racismo naturalizado, é o que faz com que o descaso pelo ser humano preto permita a um entrevistador a "mera falta de atenção" de confundir Samuel L. Jackson com Laurence Fishburne, já sendo prevenido, pelo próprio Jackson, de que nem adianta comparar também a Morgan Freeman, pois são negros e famosos atores, mas não são iguais. Não foi distração, é o racismo que escorre nojento por essas brechas morais. Eles poderiam ter resolvido tudo com um monte de gargalhadas, mas pra nós, isso não é tão simples.


Não que vejamos racismo em tudo, como o mais sonso pode tentar meter (UIA!) na conversa pra desestabilizar a pauta, é porque não somos personagens, não somos estereótipos exóticos. Não é porque somos negros que somos parecidos, não é porque uma pessoa é branca que se vai chegar e comparar a todos daquele tipo. Quantas vezes você já viu uma pessoa branca de cabelos longos e lisos loiros ou pretos ser comparada a outra que não tem nada a ver, mas também possui esses traços? Nunca, não é? Quem diz que Xuxa e Adriane Galisteu são a cara de Carolina Dieckmann e quase gêmeas de Fernanda Lima e Eliana? Repare bem as comparações acima, são apenas um ou dois traços semelhantes, geralmente, cabelos e a cor da pele, mas você não vê isso fora dos grupos estigmatizados.

O negro precisa aturar isso e ficar quieto? Cabelos crespos, pele preta e - ZAZ! - todos iguais? Vai rolar aquela piada batida de 'caminhão de japonês', como se fossem também todos iguais por características próprias da etnia? Não, caras, não que não seja possível um negro se parecer com outro, lógico, mas é preciso analisar também esse lado, de que essas comparações quase sempre são baseadas apenas na cor da pele, formato de narizes e textura de cabelos. Não somos bonecos.

Recentemente, um rapaz, trabalhador, negro e de cabelo black foi preso sem chance de defesa, sem flagrante ou mandado. Apenas porque a vítima dizia ter sido assaltada por um homem negro, de cabelo black, bermuda e camiseta. Ele é filho de um militar reformado, o que já mata aquela lenda mentirosa de que o racismo acaba quando a condição socioeconômica é alta, está sem visitas ou defesa e nem estava vestido como a vítima descreveu. É isso que faz Nayara Justino ser a 'feia' que se parece com Zé Pequeno, é isso que faz qualquer babaca cantarolar o tema do carnaval global ao se deparar com uma mulher negra, é o que faz todo homem negro ser um bandido sujo e a mulher uma iguaria sexual da sociedade.

Vinícius Romão, ator que esteve em Lado a Lado e está sendo vítima de uma prisão ilegal, apenas porque os
policiais que o abordaram acharam que ele era suspeito, por ser negro e usar cabelo black, como a tal vítima
descrevera. Agora, me diga, quantos brancos vão presos no lugar dos verdadeiros criminosos assim?
Somos tratados como estrangeiros e só somos lembrados enquanto brasileiros quando denunciamos isso, pois, vem aquela outra lenda de que ninguém pode se dizer negro se não nasceu na África (é, tem gente que acha mesmo que negro não é uma situação ideológica também, além da genética não precisar ser pura, como dificilmente tem no mundo todo).    

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro.
De geração em geração, todos no bairro já conhecem essa lição.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Mês da História Negra dos EUA



Nos EUAses, há um grupo abertamente racista, outro, abertamente neonazista e essas coisas. O país é sempre citado quando se quer falar no racismo aberto que lá ocorre, normalmente querendo negar que aqui a situação seja grave, mas lá, com tudo isso, uma família inteira - diversas vezes - pode ser retratada em seu cotidiano, sendo negra, e isso não é ofensivo. Aliás, porque tanta gente adora as séries das imagens acima, e outras, mas quando se fala em ausência negra na TV brasileira, estamos vendo chifres em cabeças de cavalo? Lá que o negro é minoria é natural estarem presentes na TV e qaui não?

No Brasil, nada é declarado e o que é apontado como racista, tentam maquiar de opinião, liberdade de expressão ou piada. Aqui, por um ou dois dias que se tira pra falar sobre a situação do negro, somos chamados de racistas... porque denunciamos o racismo (?!). Claro, isso é uma tentativa boçal de deslegitimar o reconhecimento do racismo dessa mesma gente que quer ser, mas não quer se assumir (lembrando que eu não acredito mais em desinformação, dado o advento da internet e as pesquisas sobre o assunto estarem disponíveis por toda a rede a um clique ou dedada – UIA! – no celular).

Morgan Freeman

Pois bem, falemos sobre Morgan Freeman. O talentoso ator negro estadunidense, todo ano, desde 2009, vem sendo sistematicamente usado tanto pra um racista dizer que ele é um “negro consciente”, quanto para que o próprio negro seja convencido “por um dos seus” comprando aquele discurso “vamos parar de falar em racismo, que ele some”. Primeiro, devo explicar que ele falou sobre o MÊS DA HISTÓRIA NEGRA estadunidense e não do nosso 20 de novembro, DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA do Brasil , ok? A entrevista que editaram tendenciosamente é sobre o fato de ele não querer que a história do negro seja destacada da história do país de um modo geral. Como eu já escrevi ao site Mundo Negro, é compreensível, visto que o negro ergueu o país lá, como fez aqui, logo, não faz sentido celebrar em um único mês a participação da parte afro da população, mas é um pouco mais complexo.

Entendo que Freeman (interessantemente, ‘homem livre’, em tradução livre) não queira ser relegado a um mês, o menor do ano, para falar de uma história que é a própria história de seu país, mas datas assim precisam ser estabelecidas, enquanto existirem pessoas capazes de discriminar alguém tão cinicamente a ponto de achar que é engraçado ou natural. Não é apenas constatação histórica, é conscientização. E é aí que nossa luta se assemelha à deles, mas aqui, existe um só dia para a conscientização e não celebração, aliás, confusão particular nossa, quando tentam fazer tudo parecer uma festa, sobretudo a mídia. Seria um tremendo barato ter o ano inteiro pra se discutir abertamente as origens do racismo e a aplicação naturalizada dele na sociedade, chegaríamos muito mais facilmente a soluções, só que infelizmente, isso não está sendo possível. Então, um dia, um mês já é um começo.

Mas de onde veio essa história de mês da história negra estadunidense?


A data – também celebrada no Canadá – tem dois pontos de partida: Abraham Lincoln (sim, o 16º presidente estadunidense e caçador de vampiros) e Frederick Douglass, um ex-escravo que se tornou estadista e escritor.

Abraham Lincoln
Lincoln(12/02/1809 – 15/04/1865) – que tinha ascendência indígena, mas uma preocupação maior em uma União fortalecida entre os estados - foi o presidente dos EUAses durante a Guerra da Secessão, resumidamente, o conflito entre os estados do norte (abolicionistas) e os do sul (escravocratas). Quando os sulistas resolveram romper com o norte e fundar uma espécie de país dentro do país, o norte entrou em guerra com eles pela preservação da União e desenvolvimento industrial, econômico e tudo mais. Pra isso, teriam que banir a escravidão, coisa que os sulistas não queriam. Deu-se a guerra, o norte ganhou e Lincoln promoveu a passagem da escravidão à ilegalidade até ser banida. Brilhou.

Frederick Douglass
Já, Douglass (14/02/1818 – 20/02/1895) nasceu, vítima do regime de escravidão e, depois de diversas situações de enfrentamento de senhores, alfabetização clandestina e trabalhos forçados, conseguiu fugir, constituiu família, escreveu livros autobiográficos até ser reconhecido como um grande abolicionista. Cristão, chegando a romper com algumas igrejas por excluírem-no de sacramentos por ser negro, ele alegava que só poderia haver plena justiça com todos libertos na fé em Cristo e não com diversos religiosos endossando argumentos bíblicos que justificariam a escravidão. Também foi tabelião e fiel conselheiro de Abraham Lincoln.

Carter G. Woodson

O principal nome da referida data é Carter Godwin Woodson (19/12/1875 – 03/04/1950), primeiro a levantar a necessidade de haver um evento que conscientizasse e reconhecesse o negro como parte integrante e fundamental da história dos EUAses.

Carter Woodson
Filho de africanos escravizados, seu pai lutou na Guerra Civil (Secessão) e mudou-se com a família para onde havia uma escola para negros. Mesmo não podendo frequentar, por ser muito pobre, Carter estudou por conta própria e foi evoluindo até se tornar professor e diretor do Douglass High School. Já como professor universitário, ele publicou livros sobre a história do afroestadunidense enquanto alertava à sociedade sobre a ausência e/ou pouca representação nas escolas. É tido, aliás, como o primeiro acadêmico a, de fato, estudar e propor a – inicialmente – semana da história negra de lá.

Essa semana seria a segunda de fevereiro, pois, como você deve ter reparado, tanto Lincoln quanto Douglass nasceram em dias muito próximos do mês. Isso começou em 1926, tendo se tornado o mês inteiro a partir de 1976. No Reino Unido – onde Douglass esteve fugindo de possíveis ataques de seu antigo senhor (exposto como tal em um de seus livros) – o mês é outubro.

É isso, essa é a história daquele vídeo editado e maldosamente transcrito como se Morgan Freeman falasse de lá e aqui fosse a mesma coisa. Racismo não é fada ou gnomo, não existe apenas se você acreditar. É como uma fratura exposta, nem que você vire a cara, só colocando um band-aid não vai curar, nem limpar sua consciência em relação ao que você pensa, mas sabe que pega mal, por isso, prefere se mascarar de opinião ou piada. No mais, o mês da história negra estadunidense, a marcha pelos direitos civis e os Panteras Negras, isso tudo, além de Mandela, por exemplo, são grandes exemplos de como confrontar o racismo ao invés de ‘mudar esse assunto chato’. O país tão criticado por seu patriotismo exacerbado, desejo bélico e ganância econômica, além da necessidade imperialista de se impor seu modo de vida idealizado aos outros é, justamente, onde há uma das histórias mais aguerridas contra o racismo fora da África.


Já aqui no Brasil, onde todos somos humanos e tenta-se tirar a identidade do negro dizendo não haver negros, um bando de medíocre fica achando que a piada, a opinião, o discurso, a proibição de acesso, são apenas coincidências do espaço-tempo, que cada um já nasceu ocupando seus devidos lugares de privilégios e desvantagens. 

O cinismo está se arregaçando, cada vez que falamos no assunto, vemos que ele não é inexistente, apenas estava escondido e confortável. 

A gente aponta e o racista dá triplos carpados pra trás soltando fumaça como vampiros borrifados por água benta.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Sheherazade, porque não adota um pitboy pra você?

Raquel-Sherazade-4Depois de ser o nome de referência na campanha imbecil tá com pena leva um bandido pra casa’, agora, Rachel S. pode experimentar seu próprio conselho, pois, defendeu que 20 ou 30 rapazes de índole perfeita saíssem por aí aplicando voz de prisão, um julgamento duro, porém justo e uma condenação de fazer inveja a qualquer código penal... medieval. Mas Shehe foi enganada.

Mas, como era de se desconfiar, esses heroizinhos não eram tão Bátemas assim, estavam mais para aqueles episódios clichezentos em que um babaca qualquer se vestia como um herói pra sujar-lhe o nome. Foi bom, me libertei de uma meia dúzia de fascistas no meu Facebook, agora com o plus de saber que também eram – que descansem em ignorância – boçais direitistas como eu mesmo xinguei alguns.

O certo mesmo é que Rachel S defendeu que 20 ou 30 rapazes – demonstrando coragem e muita honra – juntaram-se pra pegar de porrada e armas dois ou três pivetes (deixando apenas um pra pagar pelos outros). Muito digno, porá não dizer grandioso. Só que descobriram que dois deles possuem fichas extensas na polícia.

justiceiros-rachelCrimes como estupro, lesão corporal, furto em condomínio, ameaça, uso de drogas e recusa ao serviço eleitoral, estão associados ao histórico de apenas dois dos anjinhos de Sheherazade. Nota-se, já de saída, que os valentes justiceiros, anjos da penitência da nata da criminalidade carioca possuem um arsenal mais variado que o bat-cinto.

É, Rachel S, seus heróis defensores da moral e dos bons costumes, justos e carismáticos são mesmo um achado... ou melhor, dois, até agora. Quem sabe, você não leve um troféu Bieber 2014, pela sequência tão alucinada de impropérios em pouco tempo, não é? Deve ser alguma fase que você está passando, naturalmente.

Sheherazade, aquela que vale a pena ouvir.
Conta a lenda que ela enfrentou a tirania do rei
e o converteu num homem apaixonado, apenas
contando-lhe histórias por mil e uma noites.
Nem em mil e uma noites essa Sheherazade vai conseguir encontrar argumentos pra negar que defendeu bandidos ainda mais covardes do que o que ela achou que fosse um lixo descartável. E agora, S? Quem é a sociedade limpa que seus bibelôs defendiam ao espancar um adolescente infrator?

Eu, particularmente, torço pelo processo penal justo, mas, no ruim de tudo, ainda entendo mais um jovem que cresceu sem um pai, traficante morto, e expulso de casa pela mãe ao cometer um pequeno delito na comunidade onde morava, do que os jovens de classe média que se armam pra bater nele. Mas, veja só, eles devem responder ao processo de forma justa, não é? Alguém torce pelo espancamento e acorrentamento deles?






Vamos todos cantar, ao som de Baby, baby, baby, aquele refrão: Direitos humanos pra humanos direitos de direita!

Mas, péra, embase o argumento de Rachal S. por mais um segundo:

Untitled 114 QUEM NUNK

Ou seja, Sheherazade - a do Senor, não a do sultão - é uma BELIEBER!

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Considerações de um internauta social sobre justiceiros

Leia abaixo texto publicado pelo internauta João Pedro em sua página do Facebook, sobre o jovem infrator atacado por um grupo fascista pseudo-paramilitar:

(texto transcrito do site Pragmatismo Político)



"Dia primeiro de fevereiro, véspera do dia de Iemanjá. Na noite seguinte, a região da Pedra do Sal, onde, não muito mais que um século atrás, havia um mercado de escravos e troncos para punição, seria tomada pela alegria fraterna de uma roda de samba tradicional. Mas antes disso, a poucos quilômetros dali, no bairro do Flamengo, os antigos horrores da Pedra da Prainha seriam revividos. Puseram um negro nu preso pelo pescoço com uma trava de metal num pelourinho improvisado. Segundo o comentário satisfeito de quem publicou a foto (sem qualquer tarja no rosto, perpetuando a humilhação pública), ele estava assaltando pessoas. Pra servir de exemplo aos pretos ladrões. Ao que tudo indica, obra de um grupo local organizado com esse intuito. Recentemente, um caso semelhante aconteceu numa praia na Zona Sul.



Se esse jovem não estava na Pedra do Sal de hoje ouvindo a alta poesia da música negra, tomando cerveja e conversando com seus amigos sobre seu trabalho de mestrado não é porque tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa, mas porque não existe espaço objetivo pra dignidade e felicidade de todos no projeto capitalista, racista e violento de país que dirige o Brasil. Sem entender isso, não se entende nada e, facilmente, até mesmo sem perceber, se cai no colo dos fascistas.
É preciso saber que, oficial e oficialescamente, o Estado, seu judiciário e sua polícia fazem isso e pior todos os dias. Mas a resistência cotidiana, as lutas cotidianas e valores elevados presentes na consciência das massas exercem contrapressão. No entanto, a prova real do caráter humanamente falido do Estado burguês e de sua justiça degenerada é que na medida em que um setor cada vez mais amplo de civis se radicalizarem à direita e aderirem a seus valores e métodos, estaremos mais e mais próximos da barbárie do fascismo, sem subterfúgios. Não existe vacina política histórica, nada está garantido e nada está assegurado; a humanidade se reinventa todos os dias.



Repúdio absoluto e urgência de responder isso à altura. Não pode deixar naturalizar de jeito nenhum. Peço a todos que façam chegar a todas as organizações políticas, mandatos, movimentos e entidades democráticas de que tenham conhecimento."



Eu só te pergunto uma coisa: Camila Pitanga preterida por Fernanda Lima, a Globeleza "feia", a estátua do menino negro acorrentado, o autor de novela que quer cortar o black do jovem ator para ser aceito... Estamos mesmo paranoicos vendo racismo em tudo, ou o racismo está na cara, mas muita gente não quer admitir, porque sabe que pega muito mal perante a sociedade?

Tudo coincidência de cor?

Justiceiros, Fascismo brazuca e a inocência de justiça social humilhando um pivete


Menor com histórico de infrator é espancado e preso nu, pelo pescoço a um poste no Flamengo. Artista plástica que o encontrou – assim como todos nós que prezamos pelas vias judiciais definidas em código legislativo soberano – resistência por parte daquele tipo de conservador que lambe as botas da ditadura, aquele que segue alinha Bolsonaro “bandido bom é bandido morto”.

Bem, Yvonne Bezerra de Melo, que fundou e coordena o Projeto Uerê – escola modelo para crianças e adolescentes com problemas de aprendizados originários de traumas – encontrou o jovem – que aparenta 16 a 18 anos – e chamou os bombeiros. Ao fazer as fotos do rapaz e publicá-las denunciando os maus tratos a um ser humano – que pode ou não ser inocente neste caso, mas quem decide isso não é você ou eu, é a justiça – ela recebeu desaforos e até ameaças.


Isso demonstra como os tais ‘justiceiros do Flamengo’ têm apoio na própria classe social, a elite e sua puxa-saco (ou seria puxassaco?) direta, a classe média, que já usavam a voz do fascismo e do ódio ao pobre em diversos meios de comunicação (com total credibilidade desde o boimate e outros), agora também têm um braço armado com soco inglês, os tais justiceiros. Como eu disse no Facebook, amarrar “bandido” juvenil pé-de-chinelo na marimba e jogar por cima do fio do poste é mole, atacar pitboy em área nobre, quadrilha de estelionatário de condomínio de luxo ou traficante fortemente armado, eles não vão, então, são mais uma extensão do velho hábito de queimar mendigo numa certeza elitista de que ninguém vai se importar. Ninguém comprovou se o garoto estava mesmo praticando NAQUELA HORA algum crime, mas foi alguém se levantar pra defender e a vontade de exterminar o pobre explodiu.

Veja bem, a questão aqui não é defender direitos humanos pra humanos direitos (tenho visto muito conservador fazendo seu papel de replicar o pensamento de seus meios de comunicação engessados), é uma questão de prática. Comprovaram que o jovem tem passagens pela polícia? Ok, mas passagem pela polícia não fez de ninguém um eterno suspeito, do contrário atletas e artistas soltos aí estariam levando dura e cadeado de bicicleta no quengo a cada aparição na TV. Agora, me diz: O que esse ato “simbólico” fez pela segurança pública, além de destilar o ódio ao pobre, ao miserável? Os justiceiros poderiam ir lá até o governador e cobrar um trabalho efetivo da polícia na região do Flamengo? Não, preferem alimentar o ódio cego que faz os imbecis acharem que querer um pouco de justiça é tratar os outros como coitadinho, como se seu ódio é que fosse o natural. Aberrações.

Tenho certeza de que essa tchurminha esnobe estilo “rolezinho é o caralhx, adolescente pobre é vagabundo”, que adora ver a morte de um marginal não pensou nisso. Já veio com o discurso pronto de que tem que matar o meliante, mas não tem cérebro pra pensar na aplicação prática disso sobre a segurança pública. Se isso fosse algum tipo de solução, eu apoiaria, se fosse em confronto com a polícia, eu nunca iria contra a autodefesa, mas foi um ‘arrocha’ pra cima de um garoto, nada que as gangues de valentões de filmes adolescentes estadunidenses não façam. “(...) Eu só ando com a galera e nela eu me garanto / só que quando estou sozinho, eu só ando pelos cantos (...)”. Essa é uma ilustração feita por Gabriel, O Pensador em Retrato de um Playboy, de 1992, acho. Confira mais:

“(...) Não tenho cérebro, apenas me enquadro no sistema
Ser tapado é minha sina, ser playboy é meu problema
Faço só o que os outros fazem e acho isso legal
Arrumo brigas com a galera e acho sensacional
Me olho no espelho e me acho o tal
Mas não percebo que no fundo, eu sou um débil mental”.

Agora me diz, isso vindo de um cara que nasceu em berço de ouro, mas andava com a rapaziada da favela, não foi certeiro? Essa canção me faz pensar naquela minha teoria particular de que politicamente correto é justamente o conservador, que faz e fala tudo que seu mestre mandar. Mestre, entenda por sistema dominante. Se ele fosse contra o sistema, como nós, aí, ele seria INcorreto, pois estaria propondo modificações nos velhos paradigmas.

Bem, a questão é que as pessoas conservadoras, como era de se esperar, reduzem a discussão a algum ponto genérico e acéfalo, a ponto de não chegar a lugar algum. Pra trollar mesmo a conversa, por falta de quórum intelectual de sua parte. Talvez, por saber disso, no fundo do coração, elas se contorçam feito vampiros, diante de uma gorda cabeça de alho, quando alguém tenta explicar que a questão social tem mais camadas. Se tentar contestá-las, prepare-se para uma enxurrada de impropérios do tipo “tá com pena, leva pra casa”, “bota ele pra namorar sua filha” ou “militante de esquerda nojenta” (sobre essa última, eu nem sou filiado a partido político, apesar de saber que o que eu faço também é política... social e não aquele jogo de interesses).

Então, as pessoas vão se tornar a menina do Exorcista quando você tentar levar a conversa para um debate sobre como resolver a criminalidade na Zona Sul carioca ou em qualquer outra região do Brasil, mas eles não têm profundidade intelectual pra isso, lembra? Então gritam, esperneiam e conseguem confundir a defesa pelos trâmites legais e a cobrança da Administração Pública para isso com “peninha de bandido”. Eu não tenho pena de bandido, mas também sei que aquele tipo agredido é bem o que o sistema faz, não é o frio e calculista corrupto, nem é o matreiro golpista, ou a galera organizada que pratica fraudes em você. Pena de morte resolveria? Não, se resolvesse, não haveria criminalidade em diversos países. E matar bandido faria exemplo para  os outros, mas não faz, então não é falta de porrada, nem de tiro, percebe?

Vai adiantar mais a gente cobrar efetivamente policiamento e orientação educacional ou cortar pescoços por aí? Muita gente que se diz pobre – mas é de classe média – é teleguiada inconscientemente a odiar o pobre, só esperando ele fazer uma besteira pra dizer “olha lá, tem que morrer mesmo”. Agora não se fala em “SOMOS TODOS HUMANOS”, começa uma cagação de regra sobre o que é humano direito, vindo de gente que, com certeza, já praticou alguma merdx por aí. Seja um adultério, um uso de algo ilegal (drogas, produtos piratas), já desejou o mal a alguém, já deixou de ajudar um necessitado, enfim... Quem decide quem é direito? O critério é apenas a independente opinião da grande mídia? Quem vigia os próprios vigilantes? Quem julga os justiceiros?

Continuamos a acender uma vela pra deus e outra pro diabo, quando se critica o governo por não atender ao pobre, mas deseja-se a morte desse pobre, quando não anda na linha. Nenhum morto em favela tem ficha limpa, já repararam? Até que se comprova depois a inocência de alguns, mas aí, a tática Veja de “melhor pedir desculpas do que pedir permissão” já faturou uns trocados sobre o sangue do pobre. A quem interessa que o pobre vá para o presídio ou para a cova cada vez mais jovem? Redução de idade penal? Resolve a criminalidade também? Cadê o Amarildo? O genocídio pelo gene social da pobreza está acontecendo, então eu te pergunto: O fascismo naturalizado do brasileiro está surgindo, ou só ficando visível?


Aí, eles vêm com o papo de que ninguém chora a morte de policiais, ou outros trabalhadores. Caras, que babaquice! Claro que se mobiliza também, mas também não se vê esse povo fascista lá. Isso porque só falei no âmbito do fascismo, se eu falasse a palavra R, ia ter mais gente vindo só pra desqualificar isso, como se eu não percebesse as tentativas de se desviar da visão ampla da coisa. E o pior, é que tem um monte aí que adora O Rappa, por exemplo, Bob Marley, Plebe Rude e mais inúmeros artistas que cantam a necessidade de justiça social, mas estão cuspindo fogo nesse momento pra que se extermine, pegue, mate e esfole a pivetada. Analistas do nosso sistemas, huh?

Nota de última hora: Raquel Shaerazzade falou mesmo que o acontecido foi um símbolo de autodefesa coletivo? Caras, essa moça é o Gentilli do jornalismo... Agora que o SBT tem os dois em seu cast, bem que poderiam combinar de um deles usar voz de homem pra destilar seus preconceitos. 


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Beijo gay: Naturalize a diversidade

Finalmente aconteceu: Um beijo no capítulo final de uma novela das 21h, na Globo.

felix serio

Não mudo minha opinião em nada sobre o autor de Amor à Vida, Carrasco, o Walcyr, mas há que se demonstrar elegância em não rotulá-lo de maluco – coisa que eu faço – o tempo todo – não, precisamos de uma pausa pra não cair na rotina. O dóido de pedra Walcyr Carrasco fez uma bagunça tamanha em sua novela que ninguém lembra de metade das tramóias que ele inventou nesse quase um ano de AaV, fato.

Muita coisa foi ridícula, como a zorratotalização da gordofobia de Perséfone – na verdade, ela era virgem porque era uma chata que não sabia se relacionar com homens, não por ser gorda, repararam? – o mesmo problema de pastelaão com Tatá Werneck, uma família paulistana em que cada membro possuía um sotaque diferente, personagens que nem seus intérpretes entendiam, racismo e classismo do autor, um quadrado amoroso tão útil quanto bolso em pijama e Suzana não sabendo falar o nome de seu filho.

felix apocalipse

Mas, algumas coisas, não necessariamente propositais, se destacaram positivamente. Mateus Solano comprovou seu talento e foi dono da novela, Thiago Fragoso foi outro que se tornou querido do público com desenvoltura, mesmo tendo surgido na trama bem depois de seu início, aliás, viraram protagonistas bem antes do final da novela. Não à toa, é deles mesmo que vou falar. Eu tinha lido que Carrasco tinha recebido carta branca pra liberar uma bicota entre os personagens Felix (Solano) e Niko (fragoso), então especulou-se muito, tanto que escrevi recentemente falando disso, mas não é sobre o beijo em si que eu falo, é sobre o modo como aconteceu.

Como já era de se esperar, nenhum lar onde a TV estivesse ligada na novela explodiu por causa de dois homens se beijando. Mulheres já se beijaram e também não deflagraram a terceira guerra mundial. Na verdade, foi tão natural quanto qualquer outro beijo, entre velhos, jovens, vilões ou cachorros. Como eu digo, beijo é beijo. E aposto que na sua janelinha do xvideos também rola de um tudo e você não se vê no inferno - ou tendo que aturar gente falando alto no celular ao seu lado, que é a mesma coisa - , não é? 

A utilidade desse beijo, muito mais que todos os 1.657 merchans sociais empurrados juntos, é a naturalização de algo que é fato. A homossexualidade existe, é comum e não é se trancando em casa que você vai ignorá-la.Pessoas se beijando não agridem mais do que pessoas hétero se beijando. Isso pode, com o tempo, diminuir bastante a intolerância, a sensação de estranheza que muitos cismam de ter. Naturalize o ser humano em sua diversidade. Pois é isso, o beijo gay foi tão natural quanto poderia ser, parabéns aos atores e, que deus me perdoe, ao autor também!         


 

Linda, Lizzie e o preconceito travestido de piada

Se você tem que explicar que não é preconceito, é porque sabe que é.
Sempre que alguém precisa avisar que seu comentário preconceituoso é “só uma piada”, é nítido sinal de que É preconceito puro e sintoma de que a pessoa sabe disso. Do contrário, não haveria necessidade de explicar, ou, melhor ainda, não haveria a tentativa cara-de-pau de tentar se redimir com esse fraco argumento. Exposto o cânone da faceta cruel da humanidade cínica, vamos aos fatos.

Pegando carona no autismo da personagem Linda – da novela Amor à Vida – e na folclórica obsessão do senso comum em estar em um relacionamento afetivo, uma página que se diz de humor publicou uma “piada” fazendo referência à dificuldade de socialização do autista (Linda) e seu êxito em encontrar alguém que a ame, contra todas as probabilidades, e até lógica, segundo alguns especialistas.

Comportamento violento ou discurso de violência e sexo. Afinal,
para o Facebook, nada mais é demonstração de preconceito.
Apoiadores do discurso "é só uma piada".
O preconceito e a necessidade de se usar qualquer coisa no desespero de arrancar algumas risadas nervosas de uma plateia “oba, que bom que não sou eu na berlinda” estão em toda parte. Hoje em dia, a diferença, é que as pessoas estão mais conscientes dessas demonstrações de desrespeito. Chamam de patrulha, politicamente correto e outras baboseiras pra desqualificar a argumentação dos observadores, mas liberdade de expressão não deixa ninguém acima do bem e do mal, ao contrário, traz a pessoa para a possibilidade do direito de resposta e , se for o caso, penalização. Interessante é que o Facebook não considera preconceito como motivo de denúncia, pois, exibe opções redundantes sobre ódio e violência, mas não fala sobre preconceito sutil. ou seja, parte do pressuposto que preconceito só pode ser por meio de agressão ou não está nem aí pra isso mesmo? 

Pois bem, quando a pessoa explica que é pra levar na esportiva, é como quem é pego fazendo m*erda e apela “não conta pra ninguém que eu to fazendo m*erda”, ou seja, demonstra preconceito, falta de consideração ao próximo e a falha de caráter em se preocupar se vai ser julgado, mais do que se vai ofender. Em tempo, sei que Linda é só uma personagem, mas o autismo não é ficção. Aliás, tremenda babaquice essa de querer escalonar quem merece mais estar namorando ou casando, já que o que importa na hora H não é beleza, peso, condição física ou fisionomia. Não existe isso de ‘bonito demais pra estar solteiro’ ou ‘feio demais pra estar namorando’, e nem suas variantes ‘feia demais para namorar aquela pessoa bonita’ ou ‘merecia coisa melhor fisicamente’.

Isso nos leva ao próximo tópico: As ‘piadas’ irresponsáveis quanto a fotos alheias. Já falei várias vezes por aqui que uma piada, como qualquer peça de comunicação do ser humano com a sociedade, já nasce carregado de ideologia. Querer empurrar essa falácia de “é só pra rir” é muita ignorância ou um cinismo nível ninja silencioso no escuro. Dito isso, pense que aquela pessoa gorda de biquíni poderia ser uma parente ou um amigo seu. Por hora, tente fazer esse exercício de usar a mente e veja, em vez de uma pessoa ridícula, apenas um ser humano que cometeu o “pecado” de publicar fotos próprias, como todo mundo faz, mas não teve a decência de pedir a SUA opinião, se poderia expor tamanha cara-de-pau de querer agir feito gente normal.

Já pensou? Já tentou ver essas pessoas gordas, desdentadas, magricelas, cabeludas, mal vestidas, etc, como conhecidas suas? Você gostaria disso? Você acharia legal meio mundo distribuindo essas imagens para que a outra metade apontasse apenas pra se sentir superior rindo de que meles fora programados a acharem ridículos? Isso me faz lembrar de outra “piada” (calma, uso aspas porque ainda não encontrei a palavra certa pra essa aberração), dessa vez, sobre Lizzie Velásquez, a “mulher mais feia do mundo”. Frequentemente, há anos, vejo fotos dela sendo espalhadas internet afora co o único intuito de ilustrar piadas sobre feiúra.

Isso aí acima é uma piada? Eu acho uma babaquice.
Ela é uma pessoa, não um instrumento ou um desenho
animado pra fazerem piadas.
Na boa? Ela, após ter imagens suas publicadas, já leu receitas de como se matar, de como poupar as pessoas de se cegarem ao ter uma visão de sua esquisitice e perguntas sobre os motivos de os pais dela não terem abortado. Pareceu piada ainda? Sentiu necessidade de explicar que você só reproduziu um pensamento comum da sociedade como se fosse sua opinião e defendendo como certo por maioria de votos? Bem, Lizzie tem, hoje, 25 anos, nasceu seis semanas antes do previsto e com uma síndrome genética rara. Contra todas as previsões pessimistas dos médicos, ela vingou, se formou em Comunicação (sim, ela é colega minha, Rá! CHUPA!) e já vai para seu terceiro livro, além de palestras motivacionais.

No frigir dos ovos? Piadas que usem pessoas inocentes como ferramenta pra arrancar risos de vergonha alheia são babaquice, na minha inútil opinião, e se as pessoas se colocassem mais no lugar do próximo, muitos metidos a comediantes já teriam achado um talento verdadeiro pra fazer rir ou, no mínimo, teriam admitido que não têm graça nenhuma se não podem ofender. Aliás, ofender e, como todo preconceito, deixando informações de lado que poderiam mudar o rumo da “piada”. É como se você visse seu irmão sendo alvo de piadas por alguma coisa que você sabe que lhe dói e tentasse explicar aos outros, que não sabem disso, apenas querem alguém pra descarregar suas frustrações.

Fique com uma declaração de Lizzie e – por tabela – um resumo do que eu penso sobre essa cagação de regra do que é bonito, feio, normal, marciano e social:

Woman That Cant Grow Fat Lizzie Velasquez 02 Aprendendo com Lizzie Velasquez, a mulher mais feia do mundo"Vocês querem saber? Eu tive uma vida realmente muito difícil. As coisas foram assustadoras, foram pesadas. Mas minha vida está nas minhas mãos. Eu posso escolher fazer disso algo muito ruim ou algo muito bom. Eu decidi ser orgulhosa da pessoa que sou, de estar na pele em que estou. Me sinto especial. Posso não enxergar de um olho, mas enxergo do outro. Posso ser magra demais, mas meu cabelo é ótimo. E pode ser que eu não pareça com a Kim Kardashian ou todas essas pessoas nas revistas ou as estrelas de cinema. Realmente não me vejo assim. Mas não me importa. Ninguém tem que parecer como uma esplendorosa celebridade. Seja quem é e sinta orgulho disso. A melhor forma de se vingar daqueles que julgam e te menosprezam é contra-atacar com seus méritos e conquistas".

Depois disso, querer escolher onde é o lugar de gente bonita e feia fica meio ridículo, não é? E se você continua a se prender a conceitos que ninguém se enquadra, faça análise, o mundo é muito grande e você se impressiona por uma minoria absoluta na TV, na capa de revista e na internet. Ah, cresça desse pântano de amargura.




Fonte: OBVIOUS.