Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

sábado, 29 de março de 2014

É o Tchan: Sabe de Nada, Inocente!

EITA, MAINHA!!!

Que É o Tchan é uma banda safada, todo mundo sabe. E não é pelo teor de duplo sentido (sendo o sentido ‘duvidoso’ mais comum do que o de cunho sexual, Rá!). Estamos falando aqui em oportunismo safadamente caroneiro nos ganchos mais improváveis. Esse talento é maior do que qualquer tirada musical ou dançante do grupo baiano. Desde a época que o grupo se chamava Gera Samba. TCHAN!



Estamos falando aqui, por exemplo, do grupo que já levou o Tchan para o Egito (quem não confundiria ‘rala ralando o tchan aê’ com um dialeto do Oriente Médio, não é verdade?), além das selvas, Havaí, Japão, GoTCHAN City e os cafundós do caixa prego que você imaginar. Mas a sacada deles foi outra.

O grupo pegou carona na – então – nova onda do Funk, regravando vários sucessos do Bonde do Tigrão e outros (que eu não lembro nem o nome, lá pelo ano 2000) e lançou alguns concursos na TV pra arrecadar mais algum e não ter que simplesmente escolher uma entre as 18.000.000 candidatas a dançarinas substitutas. Agora, a onda é outra.



Agora, aproveitando – safadamente, não esqueça, por que se não a entidade não seria tão ORDINÁRIA! – o sucesso de Cumpadi Washington no comercial do Bom Negócio (já virou meme), o É o Tchan lança, orgulhosamente, a canção Sabe de Nada Inocente... Caras, eu tô rindo tanto com isso que quase posso morder minhas próprias orelhas.



Achou que eles tinham aposentado de vez, ordinário?

TOME, DISTRAÍDO!

Fonte: EXTRA ONLINE

Cliente é xingado pela Oi via SMS

Parece até uma crônica encenada na saudosa série Seinfeld, tamanha a ironia. Cliente da Oi é xingado via SMS depois de uma solicitação de suporte técnico para sua linha de celular e vai processar a operadora.

A primeira ligação

Valdemir Gomes Soares, analista judiciário, de 53 anos, usou sua linha para fazer uma ligação e recebeu uma mensagem de outra operadora dizendo que o tal número não existia. Encafifado, o jovem senhor ligou, então, para a Oi, sua operadora amiga, e solicitou suporte técnico, pois queria averiguar um possível problema com sua linha.

Papo vai, papo vem, ele foi atendido, perguntaram se ele falava da própria linha ‘defeituosa’, tudo correu normal e a ligação encerrou. Veio uma SMS informando o número do protocolo de atendimento em seguida.
Pois é, a maioria nunca reparou, se é que se lembra, mas muito antes de Félix, Mateus Solano era O Ligador. Te lembras disso? 
A ofensa

Depois de receber a mensagem de praxe, com o número de atendimento, Valdemir recebeu também um tremendo dum fora. O desaforo fora baseado no fato de que ele ‘estaria solicitando’ (entrei no climinha de telemarketing na fala) reparo para uma linha da qual ele mesmo fez perfeito uso... pra pedir o reparo... Enfim, perceberam o looping, né? Seria como se ele tivesse ligado pra dizer que a linha estava muda ou fosse a um lugar avisar que não poderia comparecer lá (O.o). Lógico que uma desatenção do cliente não justifica xingamentos, ainda mais se tratando de uma empresa do porte da Oi. Isso compromete a ética de qualquer companhia.

Cliente é chamado de idiota e imbecil em SMS enviado pela Oi, em Goiânia, Goiás (Foto: Arquivo pessoal)

As providências

Agora, o cliente ofendido por mensagem de texto vai entrar com uma ação na justiça e, acho eu, que deve faturar uma grana por danos morais sofridos. Pode ser logo na audiência de conciliação, talvez um acordo proposto pela própria Oi, pra aliviar a barra; pode ser mais tarde, quando as chances de acordo cessarem e ficar a cargo do juiz decidir; ou pode ser que os marcianos invadam a Oceania depois de tomar Vladivostok. O certo é que o cliente, nessa, está com a faca e o queijo na mão. Até a Oi já informou que esse comportamento foge totalmente à política de relacionamento da empresa, ou seja, quem o atendeu deve dançar também.



Conclusão

Gente, no frigir dos ovos e no secar dos panos de prato, essa foi uma senhora trapalhada de Seu Valdemir, não é? Sim! Mas, uma tremenda de uma ‘cagada’ (como se diz aqui no Rio, para golpes de sorte inusitados). Isso porque, fazer uso perfeito da linha pra ver se ela apresenta defeitos é incomum, ser xingado por SMS pela operadora por isso é incomum também... Agora, fazer tudo isso e ainda entrar na justiça com grandes chances de ganhar um dinheiro é que é acertar no milhar... Sobretudo, quando você percebe que estava mesmo ligando pra um número inexistente. Aí, não tem jeito, é pra parabenizar de pé Seu Valdemir.



O caso aconteceu na última segunda, dia 24 de março, em Goiânia, GO.

Fonte: EXTRA ONLINE


Ah, e se você achou a mensagem a Seu Valdemir ofensiva, escuta isso aí, abaixo, é de um ex-colega de meus tempos de telemarketing, em seu emprego anterior. A gravação virou um hit naqueles tempos, naquelas bandas do lugar onde trabalhamos e além. Um dos maiores memes que eu já vi via bluetooth, certamente.


quinta-feira, 13 de março de 2014

Jovens ingerem bebidas alcoólicas por via anal, para driblar lei seca

Jovens mexicanos andam se valendo de uma prática inusitada, para se embriagarem, mas sem prestar contas ao bafômetro. A medida, alertam os médicos, é arriscada, por abrir brechas (UIA!) para infecções nas regiões íntimas.

Parece que a coisa é feita através de objetos de higiene íntima femininos, como não são descritos, só posso pensar no clássico absorvente interno embebido no seu liquor predileto sendo absorvido por suas entranhas, garantindo-lhes um vigoroso porre retal. Você encararia tequileiras querendo empurrar-vos suculentos supositórios, amigolhes?

Necknomination.
Depois de ver aquela brincadeira, youtubesca, o tal do necknomination (uma bizarrice de meninos fazendo a meninice de beber álcool de formas 'criativas'), tenho observações a fazer:

1.       A hora que inventarem um peidômetro bafômetro para essa tchurminha, eles voltam a cachaçar pelas vias convencionais. Certeza!

2.       Depois dessa, a rapaziada que aderir nunca mais vai poder fazer aquela piada “eu não tomo, eu bebo”.

3.       C* de bêbado não tem dono.

4.       Quem tem c*, não tem medo. ANYMORE!

5.       Você manda um jovem desse tomar no c*, e ele ainda te diz 'vou mesmo, tem blitz lá na frente. Feliz da vida.

Novo método de vira-vira? Vai saber.

Novo método de canudo... não?
Vai que a moda pega no Brasil! Vai ter garotada escorando no balcão e pedindo um supositório de Big Apple, pra levar pra festinha.

Fonte: Yahoo.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Ex-Jogador francês campeão da Copa de 1998 vem ao Brasil para palestras sobre racismo

Lilian Thuram, ex-jogador de futebol francês (que esteve em campo na vitória da França sobre o Brasil na Copa de 1998) está no Rio, onde ministrará uma série de palestras sobre racismo, através de seu empreendimento, Foundation Lilian Thuram – Éducation Contre le Racisme (Fundação Lilian Thuram – Educação Contra o Racismo).

Fundada em 2008, quando o atleta se aposentou, aos 36 anos, a Fundação tem por objetivo disseminar a igualdade étnica através da Educação Infantil. Por isso, sua visita ao Brasil o leva a escolas (Ginásio Olímpico Félix Mielli Venerando, no Caju e CIEP Governador Leonel Brizola, em Niterói), comunidades (Complexo do Alemão) e centros culturais de motivos Afro (Circuito de Herança Africana, na Gamboa), além do Museu de Arte do Rio (MAR).

O ex-jogador, nascido em Guadalupe, ex-colônia francesa, é um ativista pelos direitos dos negros e contou uma passagem de sua infância, quando foi vítima de racismo na escola, quando tinha 8 anos. Havia um programa de TV popular, na França, em que duas vacas protagonizavam: “Era um desenho animado com duas vacas. A branca era esperta e a negra, burra. Meus colegas de escola me apelidaram com o nome da vaca negra.”.




Ele ainda alerta para o racismo cotidiano, aquele que traz o ranço da escravidão, que passa subliminarmente a ideia de que o negro é mais forte que o branco fisicamente, enquanto o branco tem superioridade intelectual, mas o que o deixou “de bobeira” foi outra coisa.

Ao ser informado que um homem negro fora confundido com um assaltante e preso maldosamente sem ter seus direitos mais básicos respeitados, o ex-zagueiro ficou chocado duas vezes. Uma, porque se espantou com o caso de racismo em si e outra, aquela que me faz decepcionar com meu próprio país, que desfez a imagem de país multiétnico que o Brasil tinha em sua visão.



“Isto aconteceu no Brasil? (...) Então, o Brasil ainda sofre um grande problema com racismo, mesmo com a libertação dos escravos há mais de cem anos”, constatou. Isso porque ele não vive aqui, senão, ele iria achar que nem é pra tanto, que o negro é que vê racismo em tudo (ignorando que uma societade baseada em sistema escravista tem isso como natural, portanto, normal).

Thuram foi o jogador que mais vestiu a camisa francesa.
Bem, no frigir dos ovos e secar dos panos de prato, ele ficaria chocado mesmo é com a apatia e hipocrisia com que o tema ‘racismo’ é tratado aqui. Já vi vários casos de racismo nos EUAses, África do Sul e até na França, de Thuram, mas em todos esses lugares há uma luta declarada contra esse pensamento retrógrado que é a desqualificação de uma parte específica da sociedade por sua etnia e histórico de sofrimento.

Não é apenas diferenciar a cor da pele, pois, um branco chamado de branquelo, por exemplo, não diferiria em nada de um negro chamado de crioulo, se, ao longo da história, os dois tivessem nascido em pé de igualdade, cabendo apenas a meritocracia definir quem se daria bem e quem não. Mas, sabemos que foi justamente o branco que foi lá dominar por meio da força e manobras políticas a população negra.

Portanto, racismo não é destacar a cor de pele de alguém de forma pejorativa, é se valer de um sistema social que não explica – e muitos nem perguntam – mas determina lugares de ocupação conforme o ‘perfil’ do cidadão.
Em Português, seu livro se traduz:
Minhas Estrelas Negras.

terça-feira, 11 de março de 2014

Rodriguinho e o pensamento infantil

Por Jean Wyllys — publicado originalmente em 07/03/2014, no site Carta Capital.

he man site.jpg
Pode notar: Quem tenta descrever o mundo com sua visão simplista e
ignóbil, deixa bem explícito seu posicionamento ideológico... Ou falta de.
Em desenhos de super-heróis animados destinados às crianças, a vida é dividida de maneira simples e esquemática: há o Bem e o Mal; heróis e vilões: de um lado, Esqueleto; do outro He-Man, ou, de um lado, a Legião do Mal; do outro, a Liga da Justiça. Nesse esquema montado para estruturas cognitivas de uma criança em formação, o mundo é o cenário de uma guerra entre dois lados perfeitamente definidos, sem contradições nem interseções. Contudo, quando a gente cresce e começa a conhecer o mundo como ele é de fato, a vida se apresenta em sua complexidade e precisamos nos esforçar mais para compreendê-la fora do esquema simplista dos desenhos animados de nossa infância: é o que chamamos de amadurecimento. Há, no entanto, pessoas que, mesmo depois de adultas, continuam analisando o mundo com as estruturas cognitivas e emocionais de uma criança e, por isso, têm sérias dificuldades em lidar a complexidade da vida. É o caso de Rodriguinho, aquele colunista da revista marrom e enfant terrible que distrai a corte de reacionários brasileiros sem discernimento, mas com muita indigência intelectual. Em seu novo desabafo macartista, ele responde ao meu texto - "Desonestidade intelectual" - publicado nesta sexta-feira em O Globo, tentando enquadrar meu pensamento em seus esquemas infantis por não conseguir ir além: quem é o "bom" e quem o "mau"? Oriente ou Ocidente? Negros ou brancos? Gays ou héteros? Feijão preto ou o caviar?

Vou tentar ser didático e espero que dessa vez ele consiga compreender. E passarei ao largo de suas referências ao BBB, porque estas são frutos de sua inveja mal-disfarçada do sucesso alheio. Deve ser mesmo frustrante para alguém criado a Toddy e Ovomaltine em bairros nobres e formado em escolas papai-pagou-filhinho-passou ter de ver um gay assumido, mestiço, nordestino, sem apadrinhamentos nem capitanias hereditárias, vindo das camadas mais pobres da população na posição que eu ocupo hoje. Também não comentarei outras pérolas da estupidez que não valem a pena.

No primeiro texto que Rodriguinho publicou em O Globo, ele dizia que o movimento gay é de esquerda; odeia Ocidente — e, portanto, os brancos — e gosta da África; e que, por isso, não critica a lei homofóbica aprovada em Uganda, já que, para fazê-lo, o movimento gay precisaria dizer que os negros são homofóbicos. Vejam como sua simplificação é burra — e racista — ao ponto de não diferenciar "negros" de "africanos" e "brancos" de "ocidentais". Ele precisa colocar um grupo inteiro do lado dos bons e o outro  — porque, em sua percepção como na das crianças, o mundo é binário e só tem dois grupos de pessoas — do lado dos maus.

E precisa imaginar que eu faço o mesmo, só que no sentido contrário ao dele: Uganda aprovou uma lei anti-gay porque os negros africanos esquerdistas são homofóbicos, mas nós, gays, não criticamos essa lei porque somos de esquerda e, portanto, gostamos dos negros e detestamos os brancos, que são ocidentais judeus e cristãos, e, por isso, inimigos da esquerda...

Harvey Milk era negro, Obama é branco e Karl Marx era oriental. Não é mesmo? (Aviso que isto é uma ironia, já que a claque de Rodriguinho tem as mesmas estruturas cognitivas que a dele e, por isso, pode não captar a ironia de um texto.)

Além de informar o colunista sobre tudo o que os movimentos gays do mundo inteiro têm feito para denunciar a lei homofóbica de Uganda e outras semelhantes, eu tentei explicar para ele algumas questões básicas que ele parece desconhecer sobre a história da África. Tentei que ele compreendesse que as primeiras leis homofóbicas desse continente (as chamadas leis "antissodomia") foram levadas pelo Império Britânico quando dominava vastos territórios por ali; e que a onda de preconceitos anti-homossexuais que infelizmente tem se espalhado por lá nos últimos anos não tem raízes nas culturas africanas, como o colunista imagina, mas na religião dos conquistadores e, mais recentemente, na ação política de igrejas evangélicas fundamentalistas dos EUA que investem milhões de dólares na "evangelização" desses povos, usando o preconceito contra os homossexuais como estratégia de marketing e financiando campanhas de políticos homofóbicos.

São dados da realidade, comprováveis com uma mínima pesquisa histórica. Há livros, documentários e teses que se debruçam sobre esse fenômeno e estão disponíveis para quem quiser ler. E, afinal de contas, não deveria ser difícil de compreender, porque no nosso próprio país, a força do discurso homofóbico vem, também, do fundamentalismo evangélico (que não é a mesma coisa que o evangelismo ou o cristianismo, mas uma versão fanática, extremista e preconceituosa dele, da mesma maneira que o islamismo dos aiatolás do Irã ou dos terroristas de Al-Qaeda não é a mesma coisa que a religião de Maomé, mas uma versão fanática, extremista e preconceituosa dela).

Contudo, sua estrutura cognitiva infantil --que divide a vida entre bons e maus-- precisava adaptar minha resposta à sua visão do mundo. Então, o que ele entendeu é que eu estava dizendo que a culpa da homofobia na África é "do Ocidente", da Grã-Bretanha e dos EUA, e não, como ele acha, "dos negros".

Ele diz: para Jean Wyllys, a culpa é "do homem branco ocidental". Não, menino, você não está entendendo nada! Há fatos históricos, como a implantação das leis antissodomia britânicas nas colônias africanas, e há fatos mais atuais, como a ação das igrejas fundamentalistas dos EUA que desmentem a sua burra e racista teoria de que a homofobia é um "traço cultural dos negros africanos"; porém, nem uma coisa nem a outra dizem respeito ao Ocidente como um todo uniforme e atemporal: nem as leis dos britânicos daquela época dizem respeito à sociedade atual desse país, que tem até casamento igualitário — de fato, os gays britânicos, que também são ocidentais, foram vítimas dessas leis, como testemunha a história do cientista Alan Turing —, nem a ação das igrejas neo-pentecostais americanas dizem respeito ao povo americano como um todo.

E nada disso tem a ver com a esquerda e a direita — afinal, da mesma maneira que o Império Britânico levou leis homofóbicas à Índia e às colônias africanas, o estalinismo soviético levou homofobia e outras calamidades aos países socialistas. A história da humanidade vai além, muito além, do esquema mental e da indigência intelectual que a divide em Legião do Mal e Liga da Justiça.

É fato que a homofobia — o nome que hoje adotamos para se referir à interdição e aversão à relação sexual entre pessoas do mesmo sexo — é um fundamento das religiões abraâmicas — as chamadas "religiões do livro": o judaísmo, o islamismo e o cristianismo; e está ligada à exortação "crescei e multiplicai-vos" feita pelo Deus de um povo (as tribos patriarcais semitas) que precisava sobreviver à fuga do cativeiro até a "Terra Prometida".

Essa exortação fez, do sexo para procriação, o único legítimo, e se converteu num valor reproduzido e transmitido ao longo dos séculos, pela língua e demais regimes de representação, nas culturas engendradas e influenciadas por essas religiões. E as sociedades ocidentais ainda carregam o legado dessa história, embora muitos teólogos e líderes religiosos já não façam a mesma leitura desses fatos (um exemplo é o arcebispo anglicano Desmond Tutu, da África do Sul, ativo militante contra o racismo e a homofobia, mas também tem outros exemplos nas igrejas protestantes dos "ocidentais" EUA e Grã-Bretanha). Também é fato que as sociedades ocidentais, capitalistas e com democracias liberais (nem todas as sociedades capitalistas são ocidentais, nem todas são democráticas), no último século, avançaram mais (e mais rápido) no reconhecimento dos direitos humanos da população LGBT e outras minorias, do que outros regimes.

E é fato, também, que os países africanos mais subdesenvolvidos e com regimes pós-coloniais que ainda nem chegaram ao capitalismo liberal têm condições de miséria (tanto no acesso aos bens de consumo quanto aos bens culturais e à educação formal) e carência de regras democráticas que fazem com que eles sejam mais permeáveis à ação dos fundamentalismos religiosos. A própria Igreja católica tem começado a olhar mais para a África e a América Latina, ao tempo que perde influência na Europa, que já foi seu berço e seu império. Para entender tudo isso tem que estudar e pensar um pouco mais!

Eu poderia continuar enumerando outros fatos, mas o fundamental é compreender que o mundo é bem mais complexo do que os desenhos animados e não há blocos estáticos, uniformes, atemporais, essenciais. A luta contra a homofobia, o racismo, o machismo, a intolerância religiosa e outras ameaças contra a liberdade e a dignidade humana é um desafio no capitalismo e no socialismo, em Cuba e nos EUA, no Oriente e no Ocidente, em Roma e em Teerã, no judaísmo, no islamismo, no cristianismo e até entre os ateus. E tem dado passos e recuos em cada canto do mundo. Os preconceitos se entrecruzam das maneiras mais diversas — há gays racistas, negros homofóbicos, mulheres antissemitas, judeus xenófobos, etc. — e atravessam nossa cultura das mais diversas formas, em diferentes regimes políticos e econômicos.

Quem quiser derrotá-los e construir uma sociedade mais justa e mais livre, precisará se livrar dos dogmatismos e deixar de ver o mundo como uma guerra entre o Bem e o Mal, como o vêem as crianças e os indigentes intelectuais (tenho pena dos conservadores que adotaram o enfant terrible como seu mentor intelectual). Precisará fazer política, no melhor dos sentidos, que é o que eu tento fazer cada dia da minha vida.

Ator preso injustamente afirma que processará todos os envolvidos em sua prisão... Mnos sua acusadora

Tá legal, eu confesso: Vinícius Romão está me deixando confuso.

Vinícius Romão de Souza


Entenda o caso

Dalva Moreira da Costa, copeira de um hospital no subúrbio carioca, fora assaltada e, no choque, descreveu a um policial que seu suspeito era um negro de cabelo black. Mesmo a despeito de o assaltante ter sido descrito como vestindo bermuda, o policial prendeu Vinícius Romão, que usava calças e camisa polo. Já escrevi muito sobre o racismo inerente à ação, seja por achar que ‘todo preto é igual’, generalizar traços característicos ou a mais grave situação, achar que o negro pode ir para a cadeia à toa sem que haja o mínimo de respeito. Já falamos isso tudo e as condições arbitrárias em que ele foi preso, conduzido ao presídio em outro município e ficou mais de 15 dias preso sem ter cometido crime, apenas porque Dalva, a ‘vítima’ – pelo menos, de UM dos DOIS crimes cometidos naquela noite – não tinha dinheiro pra ir até a delegacia e explicar que não tinha certeza se tinha mandado o negro de black certo pro xadrez. Mas isso você já sabe, como também sabe que o vendedor e aspirante a ator já foi liberado da prisão. Agora, fique por aí, há desdobramentos.


 Soltura e Reação

 Após ser liberado da cadeia, Vinícius – que é formado em Psicologia - reparou que seus pertences não foram entregues à sua família, como manda o procedimento de praxe, aliás, ação essa que o próprio conhece, por ter feito estágio numa delegacia (irônico não?). Trata-se de 2 celulares, um fone de ouvidos e um par de tênis, que somados, devem passar fácil de 2 mil reais (só o pisante foi mais de R$400,00, segundo uma reportagem que li). Isso tudo ficou no ar, ninguém deu conta, o delegado responsável afirmou que vai abrir sindicância. Claro, né? Além de preso, o cara, até o momento, foi roubado também. Parece até os tempos da escravidão, quando o cara era subjugado, saqueado e não tinha direito a nada além de abaixar a cabeça. Mas calma, até aí, eu ainda não estava confuso. Agora vou ficar.

 

Consequências

 Vinícius não está saindo muito e quando o faz, nunca é sozinho, ainda tem medo, medo de represálias e tals. Afirmou anteriormente que estava pensando em processar o Estado, pelo modo como foi conduzida sua prisão, sem chance de defesa ou telefonema, mesmo que não estivesse em flagrante delito. Beleza, e eu escrevi o quanto torcia pra que ele não agisse feito a classe média remediada que encara o fato como um mero engano e não um crime hediondo. Torci e veio a resposta, ele decidiu processar a todos os envolvidos nessa trozoba toda que se tornou a questão.

“Quero processar todos os envolvidos. O Estado, o policial que me prendeu, o delegado que registrou. Todos que puderem ser processados”, afirmou o vendedor e aspirante a ator. Tá Vinícius, além de ser um direito seu, você teria a obrigação moral de ser exemplo para tantos outros que não têm o apoio que você recebeu em redes sociais, além, claro, de sua família e amigos. Não foi engano ou injustiça, você sofreu uma agressão, um crime. Mas... Sempre tem um mas... Vinícius quer processar todo mundo, o policial que o prendeu, o delegado que o manteve preso, o Estado... Só não vai processar Dalva, aquela que o acusou e não retirou a acusação por uns 15 dias, segundo Vinícius, pelo “peso que ela já carrega de ter colocado um inocente na prisão”.

Cuma?! Ele não vai envolver a mulher que iniciou todo o processo de acusação e prisão injustas?! Na boa, mandar um inocente para a cadeia não é como a lição da boa amizade de um filme de comédia romântica, estamos falando da vida real, não de uma novela, onde um personagem faz o que quer e sai impune, porque é pobre ou porque jura que se arrependeu de verdade. Por todos que são olhados, acusados e agredidos apenas por serem negros, acho que Vinícius perde uma grande oportunidade de buscar justiça por completo. Processar o Estado é o direito de qualquer um nessa situação, mas não responsabilizar também a pobre moça que o acusou no susto é deixar que tantos outros se sintam seguros em cometer uma bizarrice dessas e fazer cara de “mas foi só um mal entendido”.

Vinícius Romão posa sorridente para fotos em festa realizada na quadra do Salgueiro, no Rio 

Conclusão

Lembro de ter ouvido muita coisa desde a infância, desde o mais batido ‘macaco’ até questionamentos sobre 13 de maio ‘ué, não vai ficar em casa hoje? É dia dos pretos!’ e mais um monte de aberrações que qualquer pai desculpava como brincadeirinha de criança. Cresci e já passei a esperar das pessoas olhares, abraços em bolsas e perguntas de seguranças sobre motivos para eu estar parado em algum lugar movimentado. Eu só queria uma chance de olhar para cada uma dessas pessoas e dizer como nos sentimos diante dessa visão social a que somos relegados. Vinícius Romão tem essa chance e está apontando para o lado opressor, parabéns, mas o oprimido que acata a ideologia do opressor também merece mais lições do que ‘Ai, ai, ai, não faça mais isso, hein! O moço briga!’.

Quer um exemplo de como o Brasil ainda precisa muito evoluir a mentalidade acerca da conscientização social e racial? Olha os dois comentários mais recentes – até o momento que elaborei este texto – do jornal Extra:



O primeiro faz uma simplificação de ‘racismo = destacar a cor de pele’ que só não é mais perigosa do que estúpida, já o segundo nem se ateve a temas e reportagens, já foi direto para saciar sua sede de falar asneiras, assim, sem contexto ou ligação mesmo. Só porque podia. Viu como é perigoso desperdiçar chances de falar com a sociedade? É como a pessoa do terceiro comentário falou, o direito à justiça é um dever moral do “réu”, e não mais uma chance de mostrar que nem ele deu tanta importância assim ao que passou. O último comentário até se esforçou, mas utiliza uma argumentação que consegue ser parente bem próximo do primeiro, porque acha que faria diferença a acusadora ser branca (ainda insinuando que isso pesaria mais na sociedade, como se os negacionistas não estariam de plantão pra falar besteira). O foco é a prisão de um inocente porque foi confundido com um cara que nem se parece com ele, além, é claro, dos traços ‘folclorizados’ do negro: Cabelo black e pele preta.   

Enfim, torcendo pra ele mudar de ideia, mas já com a pulga atrás da orelha. Ele quis processar todos os envolvidos, menos quem iniciou o processo? Tá legal, eu confesso: Vinícius Romão está me deixando confuso. Espero sinceramente que ele reconsidere. Não é sempre que temos essa chance de representatividade.

sábado, 8 de março de 2014

8 de março: A mulher, a sociedade e o feminismo

Se um homem está numa posição de liderança e comanda sua tchurminha tchubiruba com mãos de ferro, ele vai ser criticado - entredentes - como aquele que não tem uma mulher capaz de satisfazê-lo. "Aposto que a mulher dormiu de calça jeans".

Agora, se uma mulher está numa posição de liderança e comanda sua tchurminha tchubiruba com mãos de ferro, ela vai ser criticada - entredentes - como aquela que não sabe satisfazer seu homem e que traz sua condição de mulher como desvantagem para a vida profissional e social. "Tá na TPM, mal comida, não sabe segurar um macho".

A mulher sempre é desvantagem. Ou melhor, isso já ganhou esferas maiores, já está no subconsciente da sociedade, num nível que muitos acham que nem existe, que o normal é esse. Eu conheço um grupo de mulheres cujo sonho é ser esposa de alguém, usando argumentos como "faço por que eles (homens) gostam", num sentido submisso.

Se uma homem é educado e resolve seus problemas como um cidadão civilizado, ele 'é uma moça', mas se uma mulher age de forma truculenta, 'ela parece um homem'. Ouvi, há pouco tempo, uma mulher - criada nos "preceitos" machistas PELA PRÓPRIA MÃE, algo como '(...) aquela psicóloga ficava nos analisando para o emprego, desse jeito, aposto que nem tem marido'.

Ou seja, se uma mulher não se casa, ou arruma pelo menos um namorado, ela falhou na
sociedade? É isso que toda mulher busca na sociedade? Um homem? Nada mais? Aliás, a mulher é tão desvantagem que o machismo conseguiu gerar um filho: A homofobia/lesbofobia. Antes, só quero frisar que respeito os termos estabelecidos, mas pra mim, homo é todo e toda homossexual, mas quero destacar a 'diversidade' aqui. Enquanto uma lésbica é criticada por ser uma 'mulher querendo fazer papel de homem', um homem gay é criticado por 'querer ser mulher'. Ou seja, o homem hétero é que é o soberano. Homofobia e machismo caminham juntos.

Agora, vejamos o ato da mulher em sua natureza. No sexo, homens e mulheres estão sujeitos a posições, digamos, acrobáticas e flexíveis, mas 'abrir as pernas' é atribuído apenas à mulher. E, por ser 'coisa de mulher', abrir as pernas serve de explicação para um fracasso masculino. "Fulano? Tinha tudo pra ganhar a competição, mas abriu as
pernas". Pense no efeito disso numa mulher, sobretudo numa jovem que esteja em vias de ou início de vida sexual? Opressão, opressão, opressão à condição feminina folclorizada.

Também falo de um primo próximo do machismo, o machismo racista, aquele que traz o ranço da mulher negra enquanto objeto, a novela com a empregada negra que se não é um alívio cômico sem núcleo e sem história - como se brotasse do chão pra servir - acaba sendo aquela que satisfaz o patrãozinho ou inicia sexualmente o filho deste. Da senzala para a cozinha e para a cama. Aquela mulher negra que ainda tem que ouvir, da mulher branca (para seu 'macho'): 'Eu não sou tuas negas pra você vacilar assim'. Por quê? Porque a mulher negra é culpada por ser tão sensual, por ter a cor do pecado e ficar atraindo o marido alheio para o sexo clandestino, sem assumir, mas muito fogoso. Ou ela é culpada por ser tão gostosa - o que justifica o estupro de muitas, independente da etnia - ou ela é a involuntária culpada por atrair a rapaziada, doida pra sentir seu sabor exótico.

E não esqueçamos que isso tudo passa de pai, mas, principalmente, de MÃE pra filha. E filho também. Costumo brincar (sempre com fundo de verdade) que você critica um menino por pegar numa panela hoje e o chama de 'viado' (machismo e homofobia, lembra?), mas quando ele cresce, a mulherada sente falta de um homem que cuide de casa (por igual e não só auxilie, como um favor), e se cozinhar, caras, vai encantar muitas!



No mais, mulheres ainda são muito criadas pra serem princesas Disney na infância e rainhas do lar no resto da vida (a menos que estejam em posição (UIA!) de sensualidade, aí, pensar em família com uma mulher que não é 'pra casar' pode estragar tudo. Pelas vítimas do estupro, pelas vítimas de violência doméstica, pelas vítimas do preconceito, pelas vítimas do racismo, pelas vítimas da gordofobia e tantas outras formas específicas de se oprimir as mulheres é que eu digo. Sou um homem feminista! Não tenho medo que isso afete minha personalidade, minha masculinidade e muito menos meu caráter. Lugar de mulher é onde ela quiser. Não somos donos delas e
feminismo não é a conspiração feminina pra destronar o machismo, é apenas a busca pelo respeito que o homem não precisa se esforçar pra ter.

Ah, e machismo é uma armadilha, ok? Toda vez que um machista se afasta de sua tchurminha, ele vai ser contestado, ou seja, torna-se orgulhoso, conservador e não pode ser quem é. A espontaneidade se torna uma necessidade de ficar se auto-afirmando machão que eu já disse 'passo' há muito tempo. Não se afirma aquilo que se é, apenas continua sendo e a sociedade vai ver.  

sexta-feira, 7 de março de 2014

Prefeitura de Macaé: Campanha em homenagem às mulheres traz símbolo em formato de pênis



Isso só pode ser o pior ato falho do mundo! Ou seria ato fálico?

Jane Estanislau Roriz, subsecretária de Políticas para as Mulheres de Macaé, levou um susto quando sinalizada pela equipe do jornal O Dia, quanto à figura essencialmente masculina justamente na homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

Ligada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, ela prometeu levar a questão à Prefeitura de Macaé e à equipe que criou a campanha.

Isso é uma picx, gente! Tem que mudar isso aí muito rápido, caras! Como fazer campanha para as mulheres com um 8 de março nessa... er... posição?

Tem que ver isso aí, porque ou foi uma enorme (UIA!) falta de atenção, ou foi uma trollagem só igualada ao mestre jedi Sifo-Dyas, citado por Obiwan Kenobi, em Star Wars II - Ataque dos Clones.

Antes que pensem que é uma coincidência linguística, os produtores já foram sinalizados, mas deixaram rolar, pelo bom humor. Dizem. Rá!

Você tem cara de suspeito, jovem negro


Certa feita, eu tinha por volta de 11 ou 12 anos, era um projeto de Sagatiba (que não bebia, friso, Saga é um estilo de vida, rá!) e voltava de um animado almoço de dia dos pais com... meu pai. Bem, preciso informar-lhes, antes, que meus pais são separados desde que eu era muito pequeno, então a rotina sempre foi a de revezar feriados, finais de semana e férias escolares na companhia de um dos dois (a guarda em geral, com mamãe Garcia). Aí, não antes ou depois de aí, meu pai e eu fizemos uma baldeação num ponto de ônibus em Coelho Neto, subúrbio aqui do Rio, para que eu fosse levado de volta à minha casa, na Pavuna (também no subúrbio, coisa de uns três bairros de distância).

 
A certa altura da espera por uma condução naquela noite de domingo, um ônibus com dezenas de jovens funkeiros parou por ali e a rapeize desceu em peso. No meio daquela mini multidão, me desgarrei de meu pai e não vi que ele se concentrava num possível coletivo para nós. Nisso, senti meus braços puxados, como se faz com crianças arteiras, e reparei que dois policiais me escoltavam - será? - para sei lá onde. Também, não quero nem pensar, pois meu pai percebeu minha ausência e voltou para argumentar com os caras. Com alguma desconfiança dos oficiais da lei, fui 'liberado' e voltamos para minha casa, onde meu pai - e herói, perdão pelo clichê - se despediu e retornou para sua casa.

Devo, também, acrescentar que sempre fui muito fã de Gabriel, O Pensador, sobretudo naquela fase de busca e desenvolvimento de personalidade, eu já admirava sua verborragia pertinente, coesa e inteligente. Por isso, eu costumava andar vestido naquele estilo, com destaque para casacos com capuz - que gosto até hoje. A encarnação geral, depois do susto e do aborrecimento, era o detalhe do casaco, 'suspeito' que teria justificado a 'confusão' dos 'polícia' a meu respeito, logo eu, que nunca tinha ido a UM baile funk à época. Mesmo assim, mesmo sendo um infanto nerd juvenil, eu despertei alguma espécie de 'ar suspeito' neles. A pergunta seria: Por quê?

Momento de sarcasmo da série, quando Will se apavora,
pois 'quando um branco vai pra cadeia, é porque ele aprontou
pra valer!'.
É quando me lembro daquela passagem da série Fresh Prince of Bel Air/Um Maluco no Pedaço, quando Will e Carlton ficam incumbidos de levar o carrão luxuoso do patrão do eterno e saudoso Tio Phil para uma casa de veraneio onde o pessoal do escritório de Phil passava um fim de semana de er... veraneio. A certa altura, os dois são abordados por policiais, Will, que era do subúrbio, já sabia todo o 'procedimento' adotado pelo policial, enquanto Carlton, criado num bairro nobre e milionário, acreditava estar diante de uma autoridade que lhe passava segurança. Resumo, chegaram a ser presos e, com tudo resolvido, Will se aborrece com Carlton pela inocência em achar que foram parados por dirigirem em baixa velocidade.

Ao perguntar a seu pai se qualquer um deles também pararia qualquer um dirigindo em baixa velocidade (e não por serem negros dirigindo um carro caro), Phil responde ao filho: "Filho, eu me pergunto isso desde a primeira vez em que fui parado". Ou seja, Phil, que antes de ser um bem sucedido advogado havia sido criado numa fazenda no sul dos EUAses, região que manteve a escravidão e o apartheid institucionalizado de forma mais radical, também já sabia, como diz a canção d'O Rappa: '(...) de geração em geração, todos no bairro já conhecem essa lição'. Carlton ficou pensativo e aquele foi um dos episódios que não terminava em risadas, abraços e uma música alegre. Ao contrário, terminava em silêncio, apenas com Carlton pensando alto 'eu pararia?'.

À esquerda, Dione, encontrado e preso por ser o verdadeiro suspeito do
crime pelo qual Vinícius Romão começou pagando.
Não é que todos os negros se pareçam por que são negros, o negro é visto como um tipo suspeito, o mais potencial bandido num grupo diverso. Não é confusão, é uma estrutura da sociedade desde a época da escravidão, quando um negro resistindo ao sistema era taxado de rebelde, bandido, fujão e encrenqueiro. Ainda hoje, lá no meu outro blog Raiz do Samba em Foco, me chamam de ativista, de racista inverso e outras baboseiras. Sentir na pele, poucos, eu duvido que tenham sentido o racismo, nas piadas, nos olhares, no modo como se afastam ou se agarram a seus pertences. Claro, sei que isso é só um subterfúgio pra negar o privilégio da branquitude, preferem igualar e simplificar a situação pra não admitir que sua meritocracia é baseada em nossos ombros.

Rolezinhos, revistas em ônibus que saem de regiões de comunidades suburbanas para a Zona Sul e Centro (do Rio), justiçamentos, tudo isso tem o racismo entranhado. Já disse, não é por que é negro, mas a cultura do senso comum te faz achar o preto o suspeito. Isso leva muito racista inoperante a achar que não o é, mas defende a 'causa' sem contestar. Mesmo com o Google aí, pessoas falam qualquer coisa sem o menor embasamento, ignoram que muitos de nós, negros, pra chegarmos a fazer esse tipo de denúncia, já passamos horas lendo, debatendo e assistindo a uma enorme gama de conteúdo artístico, cultural e acadêmico. Bem, agora só vou dizer uma coisinha a mais, pra arrematar e não te aborrecer com esse papo chato de racismo/fada (que só existe se você acreditar, Lua de Cristal que me faz sonhar...).


Após o ocorrido dos meus 11 ou 12 anos, ainda fui abordado várias vezes por policiais em ônibus, principalmente. O que acontece, é que numa dessas, eu já tava tão cansado de discutir com eles, fazer cara feia e dar respostas secas quando perguntado 'de onde vem', 'pra onde vai', 'qual a cor da sua cueca' e outras delongas, que questionei a um policial o porquê de só eu e mais dois ou três (os negros mais ‘evidentes’) sermos revistados, ali nas proximidades de Benfica, Mangueira e São Cristóvão. Pois o educado (sem aspas) policial me revelou que tinham ordens para chegarem em negros, homens e por volta de 17 a 25 anos. Estava esclarecido - ou enegrecido? - o motivo. Ou melhor, confirmado.

Por isso que eu ando dizendo, Vinícius Romão deu sorte, teve apoio em redes sociais. Onde vão parar todos os outros que a família dá entrevista dizendo que era trabalhador e a mídia só evidencia o histórico criminal inventado do jovem negro pobre? Onde eu estaria agora, se meu pai não demonstrasse em sua atitude que aqueles policiais NÃO eram meus donos? Claro que há muitos negros criminosos, mas não o são por serem negros, apenas porque são parte da maioria da população, daí a evidência de a maioria ser negra na criminalidade. É uma questão de razão e proporção.