Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O vira-latas do vira-latas – Comparativo entre governos PSDB e PT


Numa democracia relativamente jovem (ainda vai completar oficialmente 30 anos), podemos fazer um paralelo básico entre PSDB (governo federal 1995-2002) e PT (governo federal 2003-2010/2011--). Antes, explico porque não entram aqui José Sarney (vice de Tancredo Neves que assumiu a presidência até 1989) nem Itamar Franco (vice de Collor, que assumiu até 1994), pois foram mais governos de transição do que de situação. Vamos usar dois governos de escolas bem diferentes, mas que pelo menos foram ‘completos’ pra termos comparativos mais sólidos.


Bem, primeiro, declaro que o motivo deste texto é a onda de complexo de vira-latas que toma redes sociais e a internet de modo geral, um fascismo passivo-agressivo que só sabe reproduzir o que se ouve na grande mídia, mas que não pensa, não pesquisa, muito menos conclui nada sem que algum alarmista dê o comando. Gente adestrada que pensa que protesta, mas só reclama. Gente que alega não estar defendendo o governo anterior por criticar o atual, que apenas critica porque tá errado. Bem, se não podem ver onde houve desenvolvimento, então, apenas se recalcaram por não terem benefícios diretos, como se o país enorme que temos fosse ser 'resolvido' numa dedada (UIA!) de F5 no notebook da presidentE. Imagine o diálogo que segue:

- Não to gostando disso.
- Do quê?
- Disso tudo que tá aí.
- E o que você quer?
- Um país melhor.
- Como?
- Sei lá, eles que têm que pensar nisso.

É tipo isso. É o vício em falar mal do governo, ver só seu próprio lado e esquecer que o país tem proporções continentais e muitas, mas muitas culturas e realidades convivendo, mesmo que não no mesmo universo econômico e social. É o complexo de vira-latas, aquilo que a pessoa sente como se fosse um estrangeiro no país, quer falar como alguém de fora, mas com a falsa autoridade de quem conhece a verdade pelo lado de dentro. É o classe média que tem sua chance de estudar e trabalhar e acha que todos deveriam ser assim, como se houvesse chances iguais pra todos. É o da classe rica que vê a classe pobre ser contemplada com diversos programas sociais, mas se ressente com as ‘vantagens’ alheias. Lembre-se, a classe rica acha que pobre só tem direito de trabalhar sem reclamar, como os barões do café, na escravidão. Aí, vem o pior, é a classe média assumindo pra si a verdade da elite. E assume tanto que nem vê oposição às suas verdades que não chame de ‘mimimi’. Discursos simplistas do tipo ‘se eu trabalho e não reclamo, porque esses favelados não deixam de preguiça?’. Claro, por isso há pobres, por preguiça, nossa sociedade é tão igualitária... Assumiu o complexo de vira-latas da classe que criou isso? É vira-latas do vira-latas. É o capanga do chefão do video game, aquele que não vale nada pro chefe, só pra atrapalhar sua vida.



Gente que nasceu com plenas condições, não luxuosas, como a minoria rica do país, mas confortáveis. Admito, eu sou um remediado desses, passo problemas pontuais ou genéricos, mas não passo necessidades, como os irmãozinhos nas comunidades carentes e nas ruas. Não esqueça: Pobre = maioria da população. Já ouvi muito, e até ameacei falar, um tempo, idiotices como ‘eu sou negro, mas não preciso de cotas, não quero ser favorecido, não terá o mesmo valor’, mas era a classe rica falando pelas emissoras de TV aberta, pelas revistas e jornais desses mesmos grupos midiáticos. E porque? Porque a grande mídia é controlada pela classe rica, simples assim. Ah, o vira-latas tem a mania de renegar dados factuais, com se tapando os ouvidos, as coisas ditas deixassem de existir. Aí, o vira-latas assume a postura infantilizada de desqualificar o interlocutor social com ‘chato, feio e bobo’ e similaridades sem fundo estatístico ou factual. É só falar que o governo não presta e arrastar tudo dele pra lama. Tipo, o mensalão e o dinheiro na cueca da época do Lula é o mal, mas esquecem da venda globalizada de meio país pelo PSDB. E se há corrupção desde o governo federal até na Light, uma das empresas privatizadas por FHC, onde trabalhei, então temos que ter a hombridade de admitir que corrupção não é privilégio do PT nem do PSDB, vamos analisar com mais cautela.


Falo isso por causa da atual presidentE (como clientE, gerentE e residentE. Rá!), Dilma Roussef. Ela faz parte do PT (atual culpado pela corrupção, desmatamento, selfie de internet e ataque dos clones). Ela é o rosto que está levando cuspe, vaia, tiro, porrada e bomba, mas quem a critica por causa do partido não pensa no que o governo tem de bom. Como eu disse, a mania de reclamar por reclamar, gente entediada e sem perspectiva. Se compararmos por alto os dois governos de Lula com os dois de FHC, vamos ver que socialmente e economicamente, o país cresceu notoriamente. Como o PIB que cresceu à medida que diminuiu sua dívida, a criação de instituições de ensino superior e o nítido crescimento do salário mínimo. A elite cria seus maneirismos pra humilhar tudo que vem do pobre ou para o pobre, inventa apelidos que muitos pobres aceitam por achar que estão ‘rindo de si mesmos’, mas é o jeito de fazer o beneficiário se envergonhar duas vezes. Por ser pobre e por ‘precisar de favores’. Muito pobre orgulhoso se nega a usufruir de seus direitos pra não parecer pobre.


Sim, isso acontece, negros que rejeitam cotas em instituições públicas de trabalho e ensino por acharem que trata-se de favorecimento a pessoas de nível intelectual baixo ou pobre querendo mais ostentar marcas que não banca do que pegar seu ‘programa-bolsa’, pois isso é mal visto. Pensa bem, leitor, que rico gostaria de ver o pobre tendo dinheiro e demonstrando que o poder do capitalismo não concentra-se em poucas mãos? Na cabeça deles, o pobre não merece dinheiro, porque não é qualificado pra isso. Grifes famosas estão odiando a moda da ostentação por parte do pobre, porque está desqualificando seu produto. Mentira, não estão é sabendo se adaptar a tempos em que não são sempre as mesmas cartas marcadas gastando dinheiro. Essa mania de que pobre com dinheiro é um perigo pra ele mesmo é caô, eles sabem que isso demonstra que não são exclusivos no ‘privilégio da compra’. Se não, porque eu me incomodaria tanto com um obre com dinheiro? Até porque é dever do governo garantir condições mínimas pra todos e não um favor. Do contrário, pra que haveria um governo? Se cada um fosse responsável por seu sustento e que vença o melhor na terra das poucas oportunidades, então, um governo centralizado não serve pra nada. Seria um feudo.     

“Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista”. – Paulo Henrique Amorim.

VERGONHA

Fontes: 


Como eu sempre friso, não sou eleitor do PT e nunca fui, mas prefiro mil vezes Dilma do que qualquer coisa do PSDB.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Resenha: Uma História de Amor e Fúria (2013)


É a história de um homem de uns 600 anos que se vê às voltas com duas constantes em sua vida imortal. A primeira é Janaína, sua amada, que ele sempre reencontra em outras encarnações, e a outra é sua eterna luta por justiça. Sempre lutando do lado mais fraco, o protagonista iniciou como um índio tupinambá em 1566 e chegou a um distópico futuro onde uma dose de água vale mais que uma garrafa de scotch, e a segurança é feita por particulares milícias exterminando qualquer um que ameace o poder do grupo dominante... Pensando bem, não é tão futuro assim, né? Rá!

Enfim, voltando ao que interessa, o protagonista (que eu só chamo assim por ter tido diferentes nomes ao longo da história) nem passa formalmente por toda a famosa ‘jornada do herói’. Ele aprende desde o começo que é o escolhido e só hesita uma vez quanto a isso, e nem demora muito pra perceber que foi só um lapso. Janaína também tem seu valor histórico, pois se é certo que sempre se reencontrem, também o é que sempre estarão lutando juntos em nome dos desfavorecidos. “Meus heróis não viraram estátuas. Morreram lutando contra aqueles que viraram”. Essa é a declaração emblemática do protagonista e que todo mundo que almeja justiça social e conhece algo de sociologia e história, já percebeu, de saída.


A história é muito pontual, tem bastante ação, romance e uma boa dose de história reflexiva, tudo muito bem dosado de modo a não ficar piegas nem recortado. Você sabe exatamente o que o filme te diz e não precisa de didatismos. Fico imaginando como seria para alguém desligado da história perceber que alguns dos personagens mais sanguinários de nossa terra são homenageados como heróis pacificadores, como o próprio filme faz. Ele deixa só pro final de uma das sequências pra te avisar que um determinado herói de guerra tem seu nome gravado na história, nomeando cidades e, no entanto, fez isso em cima de uma montanha de cadáveres de pobres e flagelados pelo governo que ele defendeu.


O protagonista foi índio contra portugueses, esteve na balaiada e testemunhou o nascimento do cangaço, foi preso político na ditadura até chegar a uma posição de conforto na sociedade (momento em que pensa duas vezes sobre sua missão), mas lá está também Janaína e o destino deles é lutar lado a lado. É emocionante ver essa linha do tempo narrada pela visão de quem sempre perdeu a batalha. Dá outra perspectiva no sentido moral. Será que a maioria defenderia tanto assim o sistema se soubesse que não passa de gado para a classe dominante? Será que os capitães-do-mato de nossa sociedade tentariam ser aceitos como heróis da moralidade se soubessem que não passam de escravos domesticados? Acho que sim, mas a luta continua, muito tem a se fazer até que nossa sociedade seja realmente consciente do mundo à sua volta.


Sendo assim, eu mais que recomendo Uma História deAmor e Fúria, como entretenimento, filme de ação e...er... amor e fúria (dahhh!!!) e também como um tostãozinho de lição história pelo ponto de vista contestatório. Se você é leitor da Veja ou tem uma foto do Bolsonaro no seu criado-mudo, passe longe, você não vai querer saber mais do que ‘Brasil é campeão’ em nossa sociedade. Mas se você tem um cérebro atento e gosta de pensar, vá e não tenha medo. Eu, na verdade, fiquei até com a sensação de que uma hora e quinze foram muito pouco. Tinha que virar série regular, fazer uma HQ, continuação, vídeo game, sei lá... Foi uma grata surpresa ver o cinema nacional produzir algo de tão bom gosto, bem feito e ainda com um conteúdo histórico e reflexivo sobre nossa sociedade.