Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Cleidison e a representatividade afirmativa da negritude

Não demorou nada para aparecer Cleidison, o menino de 10 anos, aluno de quinta série, que coloriu de marrom personagens da Turma da Mônica que ilustravam a capa de uma prova aplicada pela profesora Joice Oliveira Nunes.

Cleidison afirmou que estava cansado de só ver personagens brancos por aí, passou a mão no lápis de cor e “resolveu o assunto” (Rá!). Ele ainda afirmou que não foi a primeira vez que fez isso:

Já fiz isso algumas vezes, mas nunca na escola, muito menos numa prova. Mas estou cansado de só ver personagens brancos. Sou muito orgulhoso de ser negro — disse Cleidison ao jornal Extra.

A mãe, Maria Inês Sena, é só orgulho pela atitude do filho. E não é pra menos, se já é lindo que alguém tenha uma atitude positiva, afirmativa e ousada como essa, é ainda mais gratificante ver um garoto de 10 anos com tamanha noção de sociedade.

É aquele negócio, todo negro sabe que é negro, por mais óbvio que possa parecer, não importa se classe média, classe média baixa, pobre ou favelado. Só que a grande mídia e até veículos acadêmicos, como escolas, tendem a te fazer introjetar o preconceito como natural. Aprendemos nas escolas que o negro “veio” pra cá pra ser escravo, aprendemos que o índio só “perdeu a vaga de escravo” porque era preguiçoso e interesseiro e o branco apenas veio aqui descobrir novas terras e nos dar um nome... ah, e libertar o negro dele mesmo e o índio de sua ganância desmatadora. Em momento algum nos é oferecida uma visão crítica de como nossa sociedade se formou. Então, o branco aceita sua “superioridade” (“eu não tenho culpa de ser branco”) e passa a se incomodar com o negro, falando em racismo, quando a natureza já determinou o lugar de cada um.

Isso, ainda bem, está mudando, com medidas para levar ensinamentos sobre a cultura africana, tão discriminada por questões interesseiras de alguns segmentos religiosos e sociais há séculos. Por exemplo, eu tive Moral & Cívica e achava interessante, mas descobri há pouco tempo, que não passou de uma manobra dos governos da ditadura para levar ufanismo ao cidadão desde a mais tenra idade, nos passando essas baboseiras de que o branco foi o bonzinho e o índio foi o mau selvagem, o negro, o rebelde bandido e essas coisas. Cleidison representou muito bem a negritude e o ato simbólico de colorir um dos ícones da infância de muitas gerações há 50 anos e, sei lá porque, ninguém – ou quase – tem coragem de contestar.

Canso de falar aqui sobre as sucessivas – e cansativas – novelas televisivas e seus elencos de 90 brancos com 5 negros pelos cantos, cozinhas, senzalas e sarjetas. Já não assisto TV aberta – em casa – há alguns anos e não me faz a menor falta. Procuro meus conteúdos na internet e, no momento de relaxar, assisto a algum filme ou série, mas aí, já saciei minha vontade de ver pessoas parecidas comigo na tela. Em todo caso, já tive a mesma atitude de Cleidison na adolescência, desenhei personagens próprios, criei histórias próprias, mas nem as minhas foram tão engajadas, fui mais pro lado farofa dos quadrinhos. Cleidison tem meu respeito e admiração.

Comentaristas de ocasião, infelizmente a democracia da inclusão digital dá voz a esses boçais, afirmaram bizarrices como ‘isso é preconceito contra brancos, queria ver se pintassem um personagem negro de branco’. Eu falei isso há alguns meses, seria muito preconceituoso ver um grupo que já é pouco representado, mesmo sendo maioria da população ser pintado de outra cor, mas essa gente não consegue perceber isso, porque não estuda. Só quer se defender. Ô, racista, se você não chorou pelos 4 personagens negros em meio a 400 brancos/dinossauros/vampiros e sei lá mais o quê, não tenta dar uma de luz da razão agora, ok?

Ah, e tem aquele povo que diz que a Mônica foi baseada na filha de Maurício de Sousa, logo, não é racismo... sim, benhê, mas e os outros 400 personagens? Tudo filho do Maurício? Porra, chuchu!

O negro é tão mal representado que até nos EUAses, onde há muito mais espaço para a negritude, apesar de lá ser minoria, há essa priorização caucasiana. Por exemplo, você já deve ter notado qeu a maioria dos poucos personagens negros tem os tais 'traços finos', não é? Então, veja só que o colorista recebeu uma página da revista do Flash e, sem conhecer a personagem, tascou-lhe a branquitude, mas ela é NEGRA! Repare à sua direita.


Escrevi aqui, recentemente, sobre as implicações do novo Quarteto Fantástico no cinema, com um Tocha humana negro e esses comentários babacas que sempre se repetem, mas falsos poetas à parte, estamos aqui pra louvar a atitude muito lúcida e bela de um garoto que representou mais os nossos num desenho do que toda a grande mídia em 150 anos. Exagero? Não, ninguém levanta esse debate por lá. Lembrei de menina Gabriela, filha da atriz Kenia Maria e entiada do ator Érico Brás, que levou questionamentos étnicos para casa e, dali, surgiu o canal 'Tá Bom Pra Você?', pra questionar o posicionamento do negro na TV e na sociedade.


No mais, é isso aí, Cleidison, se todo militante diz que o importante é orientar os nossos a se conscientizarem desde cedo para buscarmos representatividade e respeito, você já tem isso em tão pouca idade. Continue assim! Tamo junto!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Valeu, Cleidison! Desculpa, Dioclécio! Porra, Maurício!

Dioclécio Luz


Em fevereiro de 2010, o jornalista Dioclécio Luz fez uma análise um tanto radical sobre a Turma da Mônica, de Maurício de Sousa. Na época, lembro que fiquei um tanto chocado e vi exageros típicos de quem tenta criminalizar a violência pastelão de Chaves ou Pica-Pau. Fiquei com um pé atrás, pois de exageros assim, nascem aberrações como A Sedução do Inocente, o livro de 1954 que associava quadrinhos à delinquência juvenil (e principal força propulsora da associação Batman e Robin como um casal homossexual e pedófilo (essa segunda parte pelo lado do Bátema). É a mesma coisa que dizer que jogos de vídeo game violentos formam psicopatas e não o contrário (psicopatas se identificam com coisas violentas), então, na época o achei um belo de um paranóico. O negócio é que as coisas mudam. Eu não via o todo, não era militante de causas sociais e deixei de observar o que Dioclécio viu, em vez disso, preferi aderir ao deboche do blog que me inspirou o titulo desse texto. Mas Dioclécio tem mais razão do que percebi há 4 anos, a meu ver. E meu argumento pra justificar minha opinião de hoje em dia é justamente o início de seu texto: “Existe uma certa condescendência por parte da imprensa – e mais ainda da crítica – em relação à Turma da Mônica. Muito provavelmente por razões nacionalistas (...)”. Eu acrescentaria aí as razões comerciais e a programação desde a infância. Quem tem coragem de contestar um ícone infantil? Eu!

Porra, Maurício!


O Porra, Maurício foi uma iniciativa das mais criativas e oportunas. Simplesmente pegaram o texto do Dioclécio como uma visão deturpada e deturpadora da obra de Maurício de Souza e entenderam-no como um observador que tira as coisas de contexto para validar seus argumentos. Agora, gente, na boa, Dioclécio poderia deixar tudo no lugar (como eu acho que deixou) e não ia dar pra sair de algumas questões que eu já, já falo. E o Porra, Maurício vai, ironicamente, me ajudar a justificar o Dioclécio e questionar Maurício de Souza quanto à verdadeira representatividade do povo brasileiro em sua obra tão longeva.

Jeremias, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e Cleidison


Bem, esse subtítulo destacou todos TODOS os personagens negros de Maurício de Souza, com exceção de Cleidison, que, graças a Deus, é real. NENHUM mais. E o Cleidison nisso tudo? Porque, por esses dias, um menino da quinta série, o Cleidison, de uma escola em Nova Iguaçu (Baixada Fluminense), pintou com lápis de cor marrom a capa de uma prova, que trazia os principais personagens da Turma da Mônica. “Pintei da minha cor, tá? Cansei desses desenhos diferentes de mim”, disse o aluno para a professora Joice Oliveira Nunes, que já teve sua postagem sobre o ocorrido compartilhada mais de mil e duzentas vezes no Facebook. Como disse a professora: Recado dado.


Fala, Maurício

Aí, não antes e nem depois de aí, surge o autor da turminha da infância de tantas gerações há 50 anos: Maurício de Sousa, o próprio, ou pelo menos,através de sua assessoria se pronuncia por nota à imprensa:

"O menino Cleidison tem razão a partir de sua visão do mundo e do meio.
Por que os personagens das historinhas que ele lê não têm a mesma cor de sua pele?

E corajosamente ele os traz mais para perto de si e dos seus colegas afrodescendentes simplesmente usando lápis de cor.

Saída criativa e carinhosa.

Ele não excluiu os personagens. Ele os trouxe para seu meio.

Sou um dos poucos cartunistas que criou personagens de cor desde o inicio de minha carreira. O Jeremias, que inclusive faz parte de nosso atual show 'Mônica Mundi', junto com Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, foi criado nos anos 60. No show ele mostra as raízes africanas que compõem nossa nação. Depois vieram protagonistas como Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho e Neymar.

Assim como temos a Samira (árabe), Hiro e Neuzinha (japoneses) e tantos outros dos quase 400 que criei nesse universo.

Impossível contar histórias brasileiras sem essa mistura linda de cores e valores.
(Pra mim não há raça branca, negra, amarela... Pra mim existe a raça humana)"

Conclusão: Tem mais dinossauro do que preto nessa foto abaixo.

Não há representatividade para negros ou qualquer outro grupo que não seja o caucasiano médio. Mas negros são mais de 50% da população. Eles não podem ser tão distraídos.

Então, crianças, o que aprendemos? Que um menino na escola, por ser negro e buscar representatividade, foi muito mais afirmativo do que o maior quadrinista brasileiro. Vamos analisar a nota gostosinha de Maurício?

Sim, o menino cleidison tem razão, mas não foi a partir de sua visão do mundo e do meio, negro no Brasil não é um nicho perifericamente localizado, é maioria da população. Na verdade, foi o pai da Mônica que criou seus personagens a partir de sua visão do mundo que o cercava, tanto que seus personagens mais famosos são caricaturas de suas filhas e alguns traços de pessoas próximas ou dele mesmo.

Sim, ele é um dos poucos cartunistas brasileiros a criar personagens ‘de cor’ (e assim mesmo, com a expressão que estigmatiza), pois é o único personagem negro. Os outros três são homenagens a jogadores de futebol, sendo que dois deles, NEM NA VIDA REAL se assumem negros. Neymar come banana quando o chamam de macaco, na campanha do pessoal do marketing e Pelé fala pra apenas sorrirmos e sairmos de cena diante de uma agressão racista. Ou seja, caricaturas, caricaturas. E ele mesmo já dá o tom da pouca representatividade, pois, no país mais negro fora da África, ele tem UM personagem autoral negro e o compara a UMA personagem árabe e DOIS japoneses, pra dizer que preza pela diversidade cultural num universo de 400 personagens.



Pra ele isso é uma linda mistura de cores e pra ele não há raças/etnias e sim uma única raça, a humana. Simplesmente, o pior e mais cara-de-pau dos argumentos-clichê de quem tenta esconder o pouco caso com um assunto tão sério quanto o racismo. Nenhum debate social ou filosófico, como diz Dioclécio, comparando Mônica a Calvin ou Mafalda, que são reflexivos sobre a humanidade e não tanto com seu próprio mundinho, como alguns personagens de Maurício. Com essa nota, ele praticamente fez a Patricia e disse: '''Não sou racista, tenho personagens negros'''. Sim, Dioclécio não estava tão errado. Não é fora de contexto que se deturpa a obra de Maurício, é olhando tanto o todo quanto com uma lupa que a gente nota fácil como ele faz pra manter o negro em seu lugar de exclusão social nas mídias. Claro, o fato de ter trabalhos ligados às organizações Globo, Editora Abril e essas coisas pode ter influenciado suas decisões editoriais, ou foram almas gêmeas que se encontraram. De qualquer forma...

PORRA, MAURÍCIO!!! PORRA CEBOLINHA RACISTA!!! USANDO FOTOGRAFIA PARA HUMILHAR OS NEGROS, QUE COISA MAIS NAZISTA!!!(Imagem via Erickl )

Porra, Maurício, tudo errado! Já não é representativo com a maioria da população e ainda tenta explicar a diversidade de seu trabalho comprovando que não diversificou porra nenhuma? Porra, Maurício!


Recado dado.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Não vi e não gostei: Sexo e as Nega

Vamos fazer um exercício de divagação aqui? Eu sei, sei que o nome do blog tem justamente essa proposta, mas, as divagações sempre vêm a partir de uma pesquisa que faço sobre o assunto. Não é criação da minha cabeça aleatoriamente, são reflexões acerca de uma pesquisa em artigos, notícias, documentários e essas coisas. Então, vamos ao porquê de eu não precisar assistir a essa nova série “Sexo e as Nega” pra saber que isso não representa nem turista gringo fazendo Black face de nega maluca no carnaval. A saber, eu vou falar ‘as nega’ mesmo, do jeito ‘malandreado’ que o autor fala nas chamadas do programa.


Primeiro, o autor, Miguel Falabella já tem trabalhos memoráveis em seu currículo, tanto como autor quanto como ator ou diretor e até carnavalesco. Vou discutir talento aqui? NÃO. Mas, dentro dessas obras, vamos ao paralelo da situação presente. Miguelito, enquanto autor, tem fama de ser exigente com seus textos (conhecido como rei  dos improvisos na função de ator, detesta que modifiquem o que escreveu) e, como vários autores, tem lá seus queridinhos – alguns até exclusivos, praticamente sua própria companhia de teatro na TV. Porque estou dizendo isso? Simples, lembremos de um recente sucesso dele: Toma Lá Dá Cá, ou TLDC, pra encurtar. Quantos atores negros você viu ao longo de toda a série no elenco principal? Arlete Salles? Eu conto ela... e... bem, mais ninguém. A mesma pergunta ‘teste do pescoço’se aplica  na telinha durante qualquer outra  obra de Falabella (e da Globo em geral, não sejamos implicantes com o cara). Falo do lado autor, pois, teoricamente, o profissional tem maior liberdade de escolha. Pode até parar por aqui e correr em outra aba do seu navegador e começar a pesquisar com seus próprios olhos. Salsa & Merengue, Sai de Baixo, A Vida Alheia, Pé na Cova... vai lá e me diga quantos negros você vê em destaque, pra comprovarmos a boa vontade em se representar a mulher do povo, a mulher negra, a mulher que é mais de 50% da população brasileira e nunca passa da cozinha ou da cama nas obras em geral (a menos que seja Camila Pitanga ou Taís Araújo, com ressalvas).

Tá vendo a negritude bem representada quando o cenário é a família de classe média brasileira?

Segundo, não é uma questão de falar do que não se sabe, pois, numa visão ampla, a Globo e a TV em geral, são excludentes com o negro. Tentam mandar esse migué que não há racismo, mas o tema nunca é abordado seriamente numa novela. Ao passo que tráfico de gente, doenças variadas e situações sociais diversas são expostas e alardeadas com seus prêmios de humanidade aflorada (mas quando falamos em racismo, dizem que é só ficção, não precisam retratar a realidade, vai entender...). Então, sabemos bem do que estamos falando. Lembre, obras como Gabriela ou Tereza Batista (ambas de Jorge Amado) já clarearam bem a mulher hiper-sensualizada da literatura (vide Sônia Braga e Juliana Paes como Gabriela e Patrícia França como la Batista). Obras como as de Aguinado Silva sempre trazem a bela Cris Vianna como a negra possível do filho do patrão. Ela já foi a empregada sexual do filho do patrão em Duas Caras e a humilde quituteira/mãe solteira que se envolvia com o português (olha aí, lição histórica) do quiosque, que a contratava para abastecer seu estabelecimento de comida e investidas carinhosas. Sem contar os gratuitos banhos de balde/mangueira na laje do barraco na comunidade. A mais recente está no ar, a moça é uma ex-passista de escola de samba. Empresária? Advogada? Engenheira? Bah, pra quê? Se colocasse La Vianna como filha do protagonista, teriam que arrumar muitos outros negros para compor seu núcleo, já que uma família na TV só convence se todo mundo for da mesma cor. Por falar em Duas Caras, essa novela ainda trouxe um momento icônico para o racismo institucional brasileiro: A – também bela e talentosa – Juliana Alves interpretando uma ‘periguete’ do núcleo da comunidade que, de repente, se decidia por entrar numa faculdade, por meritocracia e lia ‘Não Somos Racistas’, livro de Ali Kamel, todo-poderoso diretor jornalístico da Vênus platinada, que mantém, ao mesmo tempo, uma contenda descaradamente velada com o movimento negro e essa hipocrisia de afirmar não ser racista, mas não ter um negro por perto no alto escalão e peneirar bem etnicamente os outros setores da empresa.


Mas o papo aqui é Sexo e as Nega. Outra questão, não adianta falar que é uma singela homenagem à mulher negra, a Cordovil (subúrbio carioca) ou uma referência a Sex and the City. Primeiro, Sex and the City se traduz – no meu Inglês de programa legendado – como Sexo e a Cidade. É uma série ‘de menina’, mostrando o cotidiano de 4 amigas cheias da grana e suas desventuras amorosas. Colocar o nome ‘as nega’ já demonstra que o rótulo é intencional e não um acidente. Em Comunicação Social, aprendemos bem cedo que mensagens são bem escolhidas antes que saiam a público. Se fosse pra mostrar a vida das mulheres do povão, guerreiras, resistentes e resilientes, já o teriam feito, já que trocentas novelas são produzidas todo ano. Mas não, pegaram um programa inteiro. UM PROGRAMA INTEIRO pra exibir o que nunca fizeram até hoje? Ah, vá, né? Eu não sou tuas nega pra tu me engabelar assim. Não uma, nem duas, mas quatro QU4TRO protagonistas! O sinhõ abriu a porta da senzala em dia de festa, com certeza, né? Ficaram tão representativos...


Outro tema interessante é o elenco e o autor defendendo que as críticas a esse intento estranho é ‘politicamente correto’, pois, segundo uma das atrizes, a implicância seria também com o termo ‘nega’ em si. Lindas, nunca achei isso, particularmente, pois ‘nega’ é um termo carinhoso, dependendo do tom. A questão não é acusação de racismo por uma palavra (pelamor, mulher, observe as camadas da situação!). Esvaziar o discurso do outro com ‘politicamente correto’ é o mesmo que tapar os ouvidos e gritar ‘lálálá, não estou te ouvindo’. Criancice e pouca vontade de estabelecer um debate sincero e interessante. Não julgo o elenco, todo mundo tem que trabalhar pra se manter e, quem sabe, daí, elas não se destacam e alçam-se a vôos mais dignos. Taís Araújo já foi ‘teúda e manteúda’ de um coronel em Tocaia Grande até virar Xica da Silva e ser um dos nomes mais respeitados em nossa teledramaturgia contemporânea, por exemplo. Não as julgo. Julgo o sinhozinho. Ele tem uns 30 anos de carreira e nunca colocou negros pra fazer mais que ouvir piadas com cabelos, caricaturas estereotipadas e outras ‘coadjuvantices’ bem típicas da casa grande.  


Então, gente, a coisa é por aí. Não assisti, não assistirei, respeito a busca por espaço do elenco envolvido, mas a emissora já me convenceu há tempos que não nos quer lá se for pra sermos gente normal. Não gosto do Esquenta, não gostarei de sua versão dramatizada e não gosto de ser tratado como um turista exótico em meu próprio país, onde não posso ligar a televisão sem achar que estamos na Holanda ou algum outro país onde o negro é minoria. Aliás, onde o negro é minoria, há mais representatividade do que aqui. Peguemos o maior produtor de conteúdo da cultura pop  mundialmente distribuída: Os EUAses. Muitas obras por lá são muito representativas. Fresh Prince of Bel Air/Um Maluco no Pedaço, My Wife and kids/Eu a Patroa e as crianças são algumas das mais famosas por aqui. São negros de classe média, classe alta, são profissionais respeitados, almoçam, usam escovas de dentes e vestem as calças uma perna por vez. São normais e nunca vi alguém reclamar disso, mas as emissoras daqui insistem que somos alegorias de carnaval. Então, o desafio está lançado. Que alguém me mostre depois que estamos todos enganados e que Sexo e as Nega vai ser uma bela representação lúdica da mulher pobre e preta.


É só a gente pensar naquela equação básica da sociedade. Se vivemos num regime machista, onde a mulher é rebaixada a uma serviçal que tem que ficar provando obediência pra ser considerada ‘mulher de verdade’, por outro lado, vivemos num regime racista, onde o negro é rebaixado a um grupo exótico e serviçal que deve obediência para não ser exterminado... Então, a mulher preta, automaticamente vai pra base da pirâmide de juízo de valor social, quando aparece fora da cozinha é armando algum barraco, sofrendo na mão de algum ‘bom malandro’ ou na cama do patrão – ou seu filho. Isso quando têm algum background, pois, é muito comum também a mulher preta aparecer ali na casa grande do empresário e só fazer abrir portas, servir cafezinhos e fofocar da vida de gente rica. Se eles vão de Falabella pra falar da negritude feminina, eu vou de Victória Santa Cruz: Me Gritaron Negra (...) NEGRA (SI) NEGRA (soy)...



 É isso que dá não haver negros com o papel e a caneta escrevendo. E se tivesse, certamente teriam achado algum daqueles 'a folha é contra cotas e eu também', tipo aquela modelo (sei lá de que trabalho que ela fez). Bem, o que usam pra nos diminuir é o que temos orgulho, é nossa identidade. 

Inté.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Pelé, o poeta, ataca novamente

Pelé, 'big mouth strikes again', o poeta, falou que o racismo era coisa que ele sorria e deixava pra lá. Comparou xingar um negro de macaco a chamar um japonês de japonês, argentino de argentino... Cara, eu aceito que fale até besteira, mas falar merda não. Ele não é um dos nossos.


Eu sou preto. Desde que nasci. Antes de nascer. Sempre fui. Mesmo quando aprendi que teria que ser 150% bom em tudo que fizesse, só pra compensar o fator étnico, que “só” o máximo não seria o suficiente para nossa sociedade. Mesmo quando ria junto com os piadistas que queriam aparentar condescendência com minha ‘condição’, mostrando-se em um outdoor como desencanados com seu racismo por ter um ‘bom crioulo’ ao lado e deixando-os tranqüilos por evitar aborrecimentos a eles. Mesmo quando percebia os olhares de desprezo, como quem se alivia por ver que eu era o pequeno Cirillo, querendo adentrar um mundo que não era meu, em busca de aceitação. ‘Bom crioulo’? Na verdade eu era um bom bicho de estimação. O Sexta-Feira de Robinson Crusoé. O ajudante, alívio cômico. Tão sagaz pra tanta coisa, no entanto... Eu era o Pelé, quando poderia ser o Barbirotto (caso jogasse futebol com Chaves).

Na verdade, não daria pra ser o Pelé, não tenho tanta poesia nas veias e nem tampouco sua perspicácia de se manifestar em momentos tão oportunos. “Quem cede a vez não quer vitória” já diz o verdadeiro poeta, Jorge Aragão em seu hino Identidade. Pelé é um ‘bom crioulo’, um ‘preto de alma branca’, enfim, não é, nem de longe, representatividade para o combate ao racismo. Sua conversa é tão vazia que eu até acho que ele deve falar essas asneiras por puro lazer, só de sacanagem. Como o rei do futebol já demonstrou gostar mais de dinheiro e influências no alto escalão do que de reconhecimento de paternidade, acho que ele é um daqueles aspones sociais que fica apostando. Sem brincadeira, imagino claramente ele apostando com um amigo e, perdendo o certame, tem que pagar a prenda vindo a público pra abrir o engolidor de dinheiro dele. Paulo Cézar Caju é que tá certo, disse, recentemente, que ele teria uma grande representatividade pela fama que ganhou jogando futebol, mas, o poder corrompe.

Paulo Cézar Caju, tricampeão mundial em 1970 e apoiador dos Panteras Negras. Esse
me representa.

Então, voltando ao início, eu sou preto onde quer que eu for. Seja no lazer dos pagodes da vida, onde a negritude predomina orgulhosa de sua identidade, seja nos ambientes caucasianos e privilegiados sociais. Sou preto indo pro trabalho, sendo perseguido na loja como um tipo suspeito, sou preto escrevendo isso aqui ou lendo uma HQ de super heróis. Agora, Pelé, muito mal é preto na cor da pele e, vendo seu círculo social, suas companhias femininas e tudo mais, nota-se que nem isso ele seria se houvesse opção de mudança. Enfim, o deus do futebol, novamente, deixou sua santidade poética pra abrir a boca no momento oportuno, mas com o conteúdo mais nojento do que aquele cara que tampa uma narina e assoa a outra ao ar livre, na sua frente e contra o vento.

Ele dizer que no tempo dele apenas sorria e ignorava não era lidar com o racismo. Vamos convencionar uma coisa? Paremos com essa palhaçada de que é só parar de falar em racismo que ele some. Isso só satisfaz o racista qu8e não terá que dar explicações sobre suas atitudes, mas continuará a exercê-las. Como você resolveria uma fratura exposta? Operando ou cobrindo com um lençol pra não chocar quem olhar pra ela? É tipo isso, não se recolve nada apenas deixando de acreditar, como sempre falo. O nome disso é FADA. Fadas são assim, você deixa de acreditar e elas morrem. Racismo a gente combate orientando os nossos, debatendo pra que nossa argumentação chegue até o racista e ele sinta-se constrangido em nos humilhar em nossa negritude pra que seus brios sejam valorizados. Não estamos aí pra curar carência de superioridade de ninguém e Pelé, o Poeta, pratica um desserviço tamanho na causa, que merece um boicote não só da negritude, mas da categoria social jogador de futebol.


Jogadores são tão suscetíveis à ilusão de amor dos fãs que podem até se distrair, não Aranha, que sabe que muitas vezes é apenas tolerado porque é jogador e famoso, mas muitos podem acabar olhando pro Pelé e achando que ele presta pra mais alguma coisa além de figurar em replays ad eternum de seus jogos de 50 anos atrás. Juro que quando vi que ele tinha se pronunciado sobre o caso, antes de abrir o link, achei que ele fosse mandar a máxima: “Aranha, eu já fui preto e sei o que você tá passando, entende”. Entende? Eu não. Ou seu rei é maluco ou tá danado. E quanto à negritude, vamos tesouro, não se juntem a essa gentalha.    

Percebe o perigo que é deixar um aloprado desses à solta na sociedade. Olha o apelo que ele tem com jogadores iniciantes.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Aranhas, Macacos e racistas sem perdão

Grêmio excluído da Copa do Brasil. Cabe recurso. Árbitros suspensos e multados por não terem anotado nada sobre o episódio. Razoável. Vários torcedores gremistas suspensos do estádio. Pouco. Já é um começo e que sirva de exemplo, mas não é disso que vim falar. Volto ao problema maior: A negação do racismo. Patrícia Racista gritou ‘ma-ca-co’ para Aranha. Ponto. Todo mundo achou uma pena e um exagero que ela tenha sido demitida, tenha tido sua casa apedrejada, recebido ofensas e ameaças via internet e sua família tendo que se esconder. O argumento é que foi um momento de emoção de jogo. Como se estádios fossem locais de santificação do pior do ser humano. 400 jovens negros morrem todos os dias num mês e ninguém chora na mídia. Uma racista fdp sofre retaliação por um ato de responsabilidade apenas dela mesma e chovem defensores da não-violência. Quem vive pela espada, jovens...

1reproducaolance Aranha decidiu que não vai perdoar Patricia, a gremista racista que o chamou de macaco. Ele não a quer ver nunca mais em um estádio. Frustrou a TV Globo, mas faz um bem para a sociedade brasileira...

Aí, veio outro argumento furado: Talvez ela nem seja racista, foi só um xingamento, se chamasse ele de viado não ia ser homofobia. Claro que não, jovem. Primeiro, xingar um negro de macaco é racismo sim, depois, é tão escancarado que você não vê um jogador branco ser alvo de sons simiescos e receber bananas em sua direção. Então, paremos de tapar o sol com a peneira, ok? Que aqui não tem achismo nem achômetro, tem quem sofre isso na pele desde sempre. Outra, se Aranha fosse abertamente gay, xingá-lo de viado seria mesmo homofobia, porque atribuiria juízo de valor sobre a sexualidade da pessoa. Como ele não é, seria o mesmo que chamá-lo de velho, apesar da intenção ser ofender, ele não é, então não implica juízo de valor. Agora, comparar um negro a um bicho legal, mas que não é gente de verdade, ah, isso sempre foi e sempre será racismo. Como diminuir uma mulher em sua feminilidade ou um idoso por sua avançada idade, sacou? Não foi aleatório, é como aquele outro discurso besta de ‘piada pode tudo, é só uma piada’. Não, nem líder político está acima do bem e do mal, porque um espaço de entretenimento seria palco sem lei? Vá te catar.

Aí, Aranha dá uma entrevista e diz que não perdoará a jovem que o ofendeu. Pobre racista, ofendeu e nem pra ser perdoada? Que peninha, Globo, não vai ter final de novela com abraço e beijo de perdão. Vamos a algumas considerações do goleiro? Bem:

"Eu sei que muitas vezes eu não sou aceito, eu sou tolerado. Porque sou o goleiro do Santos, bicampeão mundial. E porque eu tenho um carro bonito, porque eu compro isso, eu compro aquilo. Então muitas vezes eu sou tolerado, não sou aceito. Eu já morei em prédios, minha família está de testemunha, que não me davam nem bom dia."

Nessa aí, já morre aquela lenda decorada de que o problema do Brasil é só a pobreza. Acabando a pobreza, ainda tem racismo, tá?

"Essa mocinha aí nunca mais deve pisar num estádio. As pessoas que vão assistir aos jogos têm que se comportar, a principal punição tem que ser nunca mais pisar em estádio."

Estádios não podem ser mais paraísos para racistas. Chega dessa palhaçada de que se for num momento de emoção, você pode extravasar por meio de racismo. Que paguem e paguem caro.

"Eu tenho dó dela. Como ser humano e pelas consequências. Se ela for presa, não vai ter o tratamento que eu acredito que tenha fora da cadeia. Porque o sistema é pesado e cruel. E, mesmo no crime, tem certas regras e atitudes condenáveis."

Isso, pra lembrar que o Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo e, adivinha a etnia predominante, sendo o país que se estruturou no racismo até hoje? Siiim, mais de 60% de nossos presos são negros. Isso serviria de lição, não é? Nhá... Olha o que a torcida do Grêmio canta para seus adversários, neste caso, contra o Bahia depois do episódio citado:

"Somos campeões do Mundo
E da Libertadores também
Chora macaco imundo
Que nunca ganhou de ninguém

Somos a banda mais louca
A banda louca da Geral
A banda que corre
Os macacos do Internacional"

Fofo, não? Engraçado, depois de episódios como o de Aranha, o normal seria uma faixa enorme repudiando o racismo, mas enquanto o Grêmio tenta engendrar recurso pra se desvincular de seus torcedores babacas, uma facção inteira o contradiz em alto e bom som. Isso por quê? Novamente, racismo, puro e simples.

De onde vem essa história?

1reproducaointer Aranha decidiu que não vai perdoar Patricia, a gremista racista que o chamou de macaco. Ele não a quer ver nunca mais em um estádio. Frustrou a TV Globo, mas faz um bem para a sociedade brasileira...

A exemplo de outros clubes, como Vasco e Fluminense, o Internacional – principal rival porto-alegrense do Grêmio, já tinha negros em suas fileiras, quando não era comum, e ganhava adoidado, ao passo que o Grêmio não admitia negros por ordens do grupo de alemães que doou seu primeiro estádio. Ou seja, “Colorado, time dos macacos”. Seguiu-se desde a década de 1930 com o Inter solapando a tricolorzada por uns 20 anos até que o Grêmio passou a aceitar negros, por pura necessidade de se equiparar na força e habilidades atribuídas ao negro como naturais aptidões. Mas, claro, com a maquiagem da diversidade. Não vou entrar, dessa vez, no mérito racista que isso engloba, como a coisa de ‘ferramenta pra entreter branco’, mas fica a informação, foi como adotar um galo mais nervoso para a rinha. Mas o ranço ficou até hoje.

Conclusão


Pense que a Lei Áurea tem apenas 126, dos quais, apenas os últimos 62 tiveram participação negra no Grêmio. Pouco, né? E ainda tem gente que acha que o racismo ficou no passado. Ainda hoje muitos lugares vêem o negro como exótico estrangeiro folclórico. Um bicho. Uma coisa. Acham que na pele negra não dói tanto, nos ouvidos negros não ofendem tanto... Então eu digo, pra quem tem peninha de patrícia: adote um racista e leve pra casa Na hora de julgar se ela merece mesmo tanta retaliação, olhe bem pro semblante de Aranha ao denunciar ao árbitro o racismo que lhe agredia em seu local de trabalho e me reflita: Aquilo é a cara de quem tinha o combinado social de ser ofendido e levar numa boa? Aquela é a cara de quem não tem uma família que vai se ofender junto? Aquela é uma cara de quem é raro no Brasil, não se estendendo a ofensa a todo negro com alguma consciência social?



Fonte: Cosme Rímoli.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Carta aberta a Wanderley Luxemburgo

Caro Wanderley,

O senhor afirmou não ter visto racismo nos gritos histéricos (ma-ca-co) de Patrícia contra Aranha. Disse que foi mais um ato no calor da emoção, o time dela perdia e saiu, ou coisa que o valha (Pra variar as Organizações 'não-somos-racistas' Globo descolaram mais um apoio de argumentos pouco relevantes no apoio à Patricinha racistinha).

Disse o senhor, ao jornal O Globo: — "Aquela menina deve ter amigos negros, com quem convive. Eu olhei a forma forte como ela falou macaco, será que ela não tem amigo preto? Colocam como racismo no futebol uma coisa que é totalmente diferente. Aquilo nada mais é do que a ira momentânea, provocada pela rivalidade no futebol, que faz a pessoa ultrapassar o limite da educação. É falta de educação, não racismo."

Primeiro, professor, racismo é uma tremenda falta de educação. Se aquela menina tem amigos negros e ofende um negro de fora do grupo como 'macaco', ou ela é maluca, ou eles o são. Não é a sanidade deles que discuto aqui, é sua autoridade no assunto, tendo já levado processo por ter 'brincado' de chamar um jogador de 'picolé de asfalto'. Só nessa, já entendo pra que lado sua autoridade no assunto pende. Se pra você futebol e sociedade se separam como Terra e Marte, então o maluco sou eu e quando dizem 'o problema é social', significa que na verdade não há problema, pois, não é racismo porque é dentro do futebol, não vai ser racismo quando for na quadra da escola de samba, não vai ser racismo porque vai ser dentro da escola, dentro da TV, dentro de sei lá mais o quê.

O senhor acha que racismo é apenas o ato de excluir o negro proibindo-lhe a presença e o acesso a um determinado ambiente? Olhe bem para a Tv, Wan, vê quantos negros você vê lá entre as arquibancadas e o gramado, quando passa uma partida de futebol. Ali tem exclusão, é racismo? Duvido que você diria, neste exemplo, pois, você vai se esgueirar para outro nível do racismo velado: A busca por atos extremos. Poderá dizer que não é racismo porque não teve xingamento. E se tiver, não vai admitir, porque não teve exclusão, xingamento e agressão, e depois vai renegar porque não teve xingamento, exclusão, agressão e um cartaz de anúncio de ato racista (além de amigos ou parentes negros, lembrando, se tiver negros por perto, não é racismo, né?)... No fim das contas, vai dizer que o negro é que vê racismo em tudo e se faz de vítima pra justificar seus fracassos sociais. Menos no futebol.

Voltando, então, pro senhor, foi um ato de impulso? Como na raiva, como no porre? Você sabe que atos impulsivos de gente raivosa ou bêbada, são atos que estavam escondidos pela camada da postura social, não é? São coisas que saem ao menor sinal de descontrole porque estavam lá o tempo todo. Muita coisa pode ser atribuída a um gesto isolado de emoção desvairada. Vamos ver o que mais é o tal do "calor da emoção"?

- Quando um jovem negro é hostilizado por ser negro e ter cara de 'suspeito';
- A prisão de um negro porque tinha cabelo black e andava na rua à noite, sem direito a telefonema, nem advogado (e nem visita do pai militar reformado, porque como um negro teria posição social de classe média, né?);
- Toda vez que o corpo negro cai no chão baleado e ganha um histórico criminal no mesmo segundo, pra que o ato emocionado do Estado seja apoiado pela sociedade do caos-espetáculo;
- Também é no calor da emoção que mulheres negras são relegadas à cozinha e à cama, onde podem ser atacadas por algozes sexuais de forma a liberar seus instintos e ainda manterem sua postura conservadora da sala de visitas pra lá;
- É calor da emoção, quando uma mãe de família favelada é baleada e arrastada pelas ruas do subúrbio, ato emotivo pra ocultar um ato policial escuso anterior;
- É calor das emoções quando você é perseguido e assassinado e tem a cena do crime modificada para incriminar o que estava limpo... Enfim, são tantas emoções, como diria o poeta.

Agora, se o racismo vira apenas um ato emocionado, além de ser vindo do coração do racista, Luxa, ainda demonstra o que a pessoa já sentia e só deixou escapar. Sinto muito, técnico de futebol de passado conturbado, mas afirmar que xingar um negro de macaco, porque está num estádio, é calor da emoção, então, isso só confirma o racismo e não o descarta.

É calor da emoção, é um jogo de futebol e vale tudo... vale tudo? Pra mim, quem defende racista, racista é. Está, na verdade, garantindo costas quentes na possibilidade de precisar do mesmo apoio no futuro, quando disser algo também 'no calor da emoção'. Torno a falar, se fosse calor da emoção, seria 'fdp', 'babaca', 'pereba', etc. Se não se xinga jogador branco de macaco, então sabemos muito bem pra onde essa emoção foi direcionada. Tive uma epifania: Eu não sabia que o Brasil era um país tão emocionado há tantos séculos.

Luxa, falar nunca foi seu forte, vai discutir com o Romário que você lembra disso rapidinho, tá? Por enquanto, deixa o assunto pra quem entende. Vai chutar sua bolinha aê, que seu dinheiro não vem da sua carreira como pesquisador sociológico. Deixa pra quem entende do assunto e sofre na pele o que pra você não importa (mas tá se metendo mesmo assim). Acabamos de passar por uma Copa cuja temática recorrente foi o combate ao racismo com faixas, cartazes, gritos, jogadores xingados e até personalidades midiáticas querendo aparecer comendo bananas e vendendo camisetas. Tudo isso foi só emoção? Acho que não.

E, Jornal O Globo, a opinião dele não 'foge ao senso comum', ela é uma opinião leiga qualquer, só que com seu alto-falante, pra ver se afrontam, mais uma vez, o movimento negro do Brasil. No mais, um sorriso negro, um abraço negro pra vocês.

Fernando Sagatiba

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Racismo amigo, racismo condescendente


2014 está sendo um ano muito positivo para debates sobre racismo. Diria até afirmativo. Teve o concurso da nova Globeleza – e seus desdobramentos -, teve o filme 12 Anos de Escravidão, Lupita Nyong’o eleita a mulher mais bonita pela revista People (e a avalanche de ‘foi pra cumprir cotas, mas eu não sou racista’), teve o equivalente a um jogo de futebol inteiro em evidência (jogadores, árbitro, etc) na questão de ofensas racistas, bananas, macacos, personalidades da mídia oportunistas tentando faturar e, mais recentemente, um casal “inter-racial” de jovens mineiros passando seu quinhão de racismo diário na internet, a Folha usando uma modelo negra (que você vai me dizer depois de que trabalho) para apoiar o racismo institucional contra cotas (explicar a ausência de negros em seu próprio veículo é o que ninguém lá faz), a Globo usando negros para defender uma jovem racista que, nitidamente, gritou ofensas para o goleiro Aranha (Santos F.C) e para o Brasil inteiro. Bem, é sobre esse final que eu quero falar no momento.


A jovem Patrícia, foragida até o momento que escrevo, gritou taxativamente ‘ma-ca-co’ (imagine a cena dramática e em câmera lenta apenas alguns minutos após o crime ser filmado no jogo entre Grêmio e Santos). Ela não gritou só para um atleta, gritou para o Brasil todo. Confirmou que o propblema do Brasil é social... RACISMO é um problema social e no âmbito institucional. Nada que surpreenda no país que seqüestrou e violentou negros por mais de 300 anos, sendo o último a largar do osso e por pressões internas e externas. Há quem diga que isso é um probleminha isolado, que o negro se faz de vítima. Mas, pra essa gente, eu nem dou papo (MENTIRA! Sempre faço comentários sobre). Mas o negócio dessa vez é a rapidez com que a Globo descolou amigos negros para Patrícia (porque, você sabe, quem tem amigos negros nunca poderia ser racista. #sqn). Uma rapidez que alerta para uma coisa: A naturalização do racismo por parte dos não negros e a internalização dessa aberração pelo próprio negro.

Amigos negros de Patrícia Moreira defendem e não crêem em racismo  (Foto: Diego Guichard)
Amigos de Patrícia acham que ela se deixou levar pela emoção do momento.

Veja bem, quando você considera alguém ‘amigo’, essa pessoa é branca e você negrx e, diante das ofensas proferidas por sua amiga branca a outros negros você não se ofende também, amizade, amigo é o C***. Essa pessoa está é sendo condescendente contigo. No melhor estilo Faustão, que foi se “justificar” por seu comentário ‘cabelo de vassoura de bruxa’ com um papinho besta ‘eu tenho funcionários negros, vamos mudar de assunto que tem coisa mais importante pra pensarmos’. Até aí, gente boa, qualquer senhor de engenho do século XVIII poderia dizer que não era racista, pois tratava seus escravos com a maior cordialidade, apenas punindo os errados. Faz sentido pra ti? Pra mim não, pois, é uma mentira tão retumbante quando ‘aguarde o contato que a gente te liga, mesmo que seja feedback negativo’. Mas, voltando aos amigos de Patrícia, eles foram arrumadinhos pra defenderem alguém que fugiu. Se excluiu perfis da internet e escafedeu-se, lindxs, não tá tão certa assim de sua inocência.

Segundo Faustão, seu racismo se justifica porque vários negros trabalham "com" ele. Eu vejo umas três pessoas em frente às câmeras só. Sacou o "com"?

Mas isso acontece muito. Você é ‘tolerado’ por alguém, mas quando alguém com os mesmos traços seus o incomoda, aí ela fala tudo aquilo que você ouve dos outros, dos não amigos. Tipo você dizer que tem amigos gordos e os respeita. Mas se um gordo de fora do círculo te incomoda, você grita impropérios justamente sobre a forma física da pessoa. Deixa eu explicar a diferença: Se a pessoa te respeitasse pelo que você é, ao brigar com alguém parecido contigo nessa característica, ela não ia usar esse ponto como arma. Ela nem teria esse pensamento. Se usou isso, usou porque usaria contra você também, mas, provavelmente, no caso de Patrícia, tudo isso pode ter sido usado contra seus “amigos”, tendo sido abafado como ‘piada’, ou como aquela desculpa esfarrapada do racista: Ele usa o racismo pra parecer descolado e desapegado da idéia, mas está destilando de modo a você sofrê-lo e ainda agradecê-lo. “Pô, fulano é muito desencanado com racismo, a gente vive rindo com suas piadas”.



A genialidade do racismo está nisso, nele ser folcloricamente conhecido como ‘velado’ e estar escancarado. O melhor disfarce é estar na vista de todos. Quem desconfiaria que um crime pesado desses teria essa cara de pau? Pois é, aqui tem. Patrícia virou vítima, coitadinha, foi ameaçada, talvez tenha sido um mal entendido. Lembro-me de uma passagem pessoal. Estava em Cabo Frio com uma tchurminha da pesada aprontando as maiores confusões no maior clima de azaração quando, numa ida ao mercado, estávamos em 2 ou 3 carros e um colega do carro de trás buzinou. Fiz um gesto, como quem diz ‘passa por cima se está com pressa’ e ele se projetou pela janela do carona gritando “sai daê, macaco!”. Não tive reação, depois não lembro se chamei ele pra porrada, mas o fato é que, enquanto classe média, o racismo aparece de forma mais sutil do que se eu fosse mais rodado àquela altura – com uns 19 anos. Nessa, ninguém NINGUÉM falou nada. Nem um ‘para de falar m...’. Nada, ninguém tomou partido do único preto do grupo (o outro preto do grupo não se assumia muito como tal por ter mãe branca, não sei como está hoje aquela cabeça).

Percebe como o Faustão e cia não são racistas, porque têm negros a sua volta? é assim que 'não somos racistas' na mente deles.

Assim como Patrícia, aquele indivíduo não foi questionado por ninguém. Se eu fizesse questão, provavelmente iriam defendê-lo como um incompreendido. Mas, a questão é simples: Se ele quis responder uma zoação à altura, porque não me xingou de babaca? Porque sua primeira reação foi me ofender em minha negritude? Se me chamasse de ‘viado’, seria homofobia? Será que respostas assim, no calor da emoção representam o legítimo racismo? Eu respondo no próximo bloco parágrafo.   

Olhe, o rapazote não me xingou de babaca, porque, na cabeça dele e de muita, mas muita, gente no Brasil, ser negro é ter um alvo certo de ofensa. Não foi um xingamento aleatório, ele quis usar isso, quem sabe, já não tinha pensado isso em outras oportunidades, apenas não tornando público. Tanto é que, meu questionamento sobre a palavra ‘viado’ não foi à toa. Se a questão fosse envolvendo sexualidade, seria um xingamento homofóbico sim, mas como eu não sou, caso chamasse, não seria homofobia. Do mesmo jeito que bater num homem chamando ele de ‘mulherzinha’ não vai enquadrar ninguém na Lei Maria da Penha, sacou? Pode ter sido no calor das emoções que o dito cujo tenha me respondido um deboche com racismo, pode ser que Patrícia tenha apenas se exaltado, mas... e daí? Quero mais que pague pelo crime que cometeu. Esse é o segredo da longevidade do racismo, essa vontade louca de negá-lo, de distorcê-lo até se tornar banal. Quem vive na pele sabe e, quando se conscientiza disso, não tem falsa amizade que sobreviva. Raiva e porre podem deixar você exaltado, mas o que é dito na raiva e no cachaçal foi pensado sóbrio e na hora da calma com certeza. Eu tenho amigos gays, gordxs, caucasianxs, evangélicxs, etc. Pode ter certeza, que, numa discussão, a única coisa que eu não faço é usar o traço que nos difere como ofensa, nem dentro, nem fora do meu grupo social. Justamente por que sei o que é ser ofendido em algo que é parte de sua identidade e, quando vivo isso, não é nada legal. E se um amigo meu ofende um negro de fora da galera por ele ser negro, aaah, não precisa nem olhar mais na minha direção e acharia muito justo que alguém me excluísse do convívio se eu demonstrasse tamanha contradição.

Nego, estão botando tudo em você e você tá achando normal. Quando abrir a mente, vai ver o que está passando batido bem na sua cara.



Amizade não é dizer ‘ele é preto, mas é meu amigo’ e não é freqüentar folcloricamente os lugares comigo. Na verdade, antes de amizade, a humanidade está em se respeitar o próximo. Quem garantiu a Patrícia que Aranha ia levar numa boa seus gritos histéricos? Se eu chamo um amigo de fdp, preciso ter certeza que nosso código de convívio social permite a certeza de que é só uma brincadeira, do contrário ele se invoca comigo por eu ter xingado sua mãe e aí? Vou ficar remediando que foi só um lapso? Não, amigos de Patrícia, ela não é sua amiga se anda com vocês e mantém guardado um arsenal de xingamentos por sua etnia predominante. Vão defender alguém mais defensável, tipo Coração Gelado ou Doutor Gori.

Doutor Gori explica a Spectreman que seu objetivo era acabar com a humanidade... para salvar a natureza. Muito mais fácil de defender uma jovem emocionada que se torna racista apenas durante 90 minutos.