Crônicas, divagações e contestações sobre injustiças sociais, cultura pop, atualidades e eventuais velharias cult, enfim, tudo sobre a problemática contemporânea.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Deise Nunes e a solidão da única Miss Brasil Negra



Eu só ia fazer uma notinha no facebook falando sobre representatividade, sobre como o maior país de habitantes negros fora de África respeita muito pouco ou quase nada essa maioria da população ocultando nossa cara e nossa cor dos painéis privilegiados da mídia. É só ver aqui que sempre falo, sobre como dizem logo que uma Lupita Nyong'o sendo eleita a mais bonita do mundo é 'pena', 'politicamente correto', 'modinha' e outras baboseiras. Exemplos não faltam. Repare que uma Pathy Dejesus sendo anunciada como capa da playboy de aniversário é logo chamada de 'feia' por uma maria ninguém que nunca terá esse destaque de 'primeira negra a estampar uma capa'.


Veja quando uma negra ganha qualquer concurso desse tipo e aparecem os racistas dizendo que não eram tão bonitas assim... porquê? Porque são imbecis? Sim, sem dúvida, mas são imbecis programados a acharem bonitas apenas as carinhas de anjo protagonistas de novela. Eu disse carinhas de anjo? Sim, porque você aprendeu que um anjo deve ser branco de nariz pequeno e, melhor ainda se tiver, olhos claros. Aprendemos isso com a naturalidade com que se aprende que manga com leite faz mal (mas ironicamente, sorvete de manga não, né jocoso?).

Enfim, a tal notinha precisou virar um mini textão (hein?!) por causa de dois comentários que aparecem logo na cara da matéria do jornal Extra. Repare no que dizem os tais Helcio e Silei,

"Ela é um pouco clara até para ser considerada mulata. Penso que para ser negra, a pessoa não deveria ter ancestrais de outras raças. O povo brasileiro é mestiço" - Helcio

Quer dizer, tem mais merda nesse coment do que em todo sistema de esgoto do Brasil negro só pode ter uma cor ? Digo, um branco é branco mesmo que seja a pálida e nórdica Tarja Turunem ou a mestiçada pálida Flávia Alessandra. Ninguém contesta, ninguém tenta 'desculpar' como quem alivia um defeito de nascença. Mas se for negro, aí, negam o negro de todas as formas. Não é à toa que vivem dizendo que não há racismo, eles sequer reconhecem que existam negros! Mas calma que tem mais.


E teve mais:

"Todas ai apresentadas são bonitas, mas na minha opinião, a beleza precisa ser (sic) deiferente, exotica para vencer. A de olhos verdes e diferente porque e negra de olhos verdes, o que e dificil de ver..." - Silei

Ou seja, não só não reconhecem o negro como a etnia predominante e maioria da população daqui há séculos como ainda nos tratam como um artigo estrangeiro de algum tipo de terras místicas. Somos aliens. Dizem esse papo de mestiço pra não terem que confrontar a verdade: Muitos são racistas e ou não sabem ou não querem ver assim, por que sabem que é feio e crime.

Embora eu fique feliz com a maioria de desaprovações nesses comentários, volto a falar, ainda estamos muito longe de tratar do assunto racismo com a legitimidade que merece, porque muita gente não sabe se colocar (UIA!) preferindo tudo como está, descaradamente velado, do que abrir o verbo e confrontar seus fantasmas, olhar no espelho e falar 'ei, eu penso assim, percebo que é errado e gostaria de saber como mudar'. Muito melhor do que essa gangue que fica se justificando atrás de opiniões fajutas, senso comum e influência de tv e capa de revista.

No mais, Deise Nunes é a única negra a ser eleita Miss Brasil. Será mesmo que em 30 anos não houve alguma outra moça preta que fosse páreo para a minoria branca do país? Somos mestiços sim, Helcio, mas a predominância é preta, morou? Quando dá 18h, não importa se está claro ou escuro, é noite. É preto. E por falar nisso, fique com imagens de Deise Nunes e as atuais candidatas a sucessão.

São elas, na ordem que aparecem abaixo (depois de Deise, lógico): Beatriz Leite (Espírito Santo), Deise D'Anne (Maranhão, e que recebeu esse nome de sua mãe justo em homenagem a Deise Nunes), Mariana Denny (Rondônia), Raíssa Santana (Paraná), Sabrina Paiva (São Paulo) e Vitória Esteves (Bahia).  

Deise Nunes













Fonte: Extra

Atualização 04/10/2016

A vencedora saiu mesmo de uma das meninas citadas. Foi a Miss Paraná, Raissa Santana. Parabéns, preta! Que mais e mais vezes possamos estar nesses lugares de visibilidade e representatividade!





segunda-feira, 19 de setembro de 2016

FAKE: Não é o corpo de Domingos Montagner

Sempre falo aqui sobre essa afobação pra repassar qualquer coisa como verdade sem nem saber de onde veio. Mas, vamos lá, que titio Saga fala mais...



Então, deu-se a fatalidade, a tragédia aconteceu e, como de costume, os mentirosos de plantão surgem até dos esgotos pra contar uma mentira e impressionar os impressionáveis que não contestam as publicações mais questionáveis da internet. A da vez envolve o falecimento do ator Domingos Montagner.

Já vou cortando o mistério e afirmando logo que, a exemplo do garoto tailandês de quem falei há um tempo aqui, a foto é real, mas a notícia que estão usando pra compartilhá-la é fake. Ou melhor, distorcida. Assim como o o tal garoto morreu por uma descarga elétrica, mas do computador e não do celular, podemos notar o mesmo procedimento de farsa sobre o ator global tragicamente morto recentemente. Vamos às considerações:

Assim como a foto do menino, a do 'ator' é envolta em mentiras e distorções que impressionam dado o choque da novidade, a tragédia e, claro, aquela necessidade que as pessoas têm de querer ser o primeiro a dar uma notícia chocante. E a internet só amplificou isso. Cada vez mais aparecem esses fofoqueiros de ocasião, com o dedo nervoso no zap pra compartilhar notícias sem nem saber se são verdade, só pra parecerem os formadores de opinião.



Enfim, repare bem que a foto traz um cara vivo. Lembra o ator falecido? Até que sim, mas talvez depois de um tempo vejamos que não tem nada a ver e só estamos impressionados pela imagem de um cara molhado e sujo de lama enquanto acabamos de saber que um carismático ator faleceu vítima de afogamento. Sacou? Ligamos o choque da notícia e nossos cérebros já buscam identificar uma ligação entre isso tudo.

Na verdade, segundo o e-farsas (que me funciona muito como dicionário na dúvida de escolha de palavras, só que pra notícias de veracidade questionável), o fato é que o cara tentou assaltar, por algum motivo foi surpreendido e tentou fugir pelo mar, em São Luís do Maranhão, mas atolou na lama. Foi preso, ou seja, NÃO MORREU! Aliás, se você se ligar, ele tá segurando a maca. Defunto nenhum morre com aquela posição, veja o braço dele, enrijecido como quem ainda mantém a firmeza dos gestos e não aquele relaxamento completo de um corpo desfalecido ou sem vida. Ah, isso tudo em 2015, lembre-se, não é porque vocÊ vê uma foto HOJE que necessariamente ela tenha sido tirada no momento que você tomou conhecimento da existência dela.

Então, Saga, o que é que tem? A foto é real, mas não é do ator Domingos Montagner. Assim como também não é a daquele policial resgatando um corpo boiando na beira do que parece ser um rio. Apesar de ser bizarro, também tenho curiosidade, às vezes, de ver esse tipo de foto por questão de constatação, mas daí a ceder ao impulso irresponsável de repassar como verdade pros outros é uma travessia muito perigosa. Porque aparece um palhaço tipo eu dizendo e comprovando que é mentira e aí? E agora José? Com que cara você vai? Rá!


Ah, e por favor, vamos evitar essas postagens místicas do tipo 'ah, ele não respeitou o rio que é uma entidade', porque isso parece aquela coisa de fanático religioso que quer por a culpa da morte de alguém nela mesma. Fatalidades acontecem e não é o misticismo que está por trás disso é a própria existência. Sempre tem um bonito pra falar em jargões sobrenaturais o famoso 'bem feito, quem mandou?'. Ninguém fala que um assassinado morreu porque não pediu licença pro espírito da arma que o alvejou, ok? Um segundo a mais pensando e a gente evita muita merda de ser falada. E nem vou comentar as piadas sobre Domingos e Camila Pitanga porque isso é nojento demais. Estamos falando aqui de pessoas, que têm famílias e não desses babacas que acham que precisam ser engraçaralhos o tempo todo. Que façam piadas com seus parentes e não com os dos outros pra ver se acham bonito.


Att,

Bjks nas crianças.

Fonte: E-FARSAS

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Malandramente, ela não é obrigada a nada, mané!



Malandramente, de Dennis DJ, Nego Bam e Mc Nandinho é um sucesso instantâneo, não há como retrucar. Beleza. Mas se você parar pra analisar a letra (eu sei, parece inútil num hit que só visa o entretenimento imediato), vai notar que há um forte traço cultural do velho costume machista do homem achar que a mulher deve-lhe alguma coisa por ser cortejada, ou mesmo sua mera atenção, qualquer coisa, enfim, e, nesse contexto, a tal coisa seria o sexo em troca da balada bancada pelo machinho de mamãe.

Explico. Quem não conhece - ou não é ele próprio - aquele tipo que acha que a mulher que aceita um convite pra sair, deve retribuir a 'honra' cedendo aos anseios sexuais do dono da carteira? Aliás, eu já conversei com amigas que admitiram não dizer nem sim nem não pra continuarem obtendo regalias, justamente, deixando o bonitão naquela expectativa de que a qualquer momento seria agraciado com um favor sexual. É o machismo fazendo o que faz de melhor: Mostrando que ele se desenvolveu por uma necessidade do homem de se sentir no controle (o que pra mim só prova que o homem é o fraco quando precisa disso).





Vamos analisar a letra?

"Malandramente / A menina inocente / Se envolveu com a gente / Só pra poder curtir "
Acho que ele está sendo irônico nessa parte ou foi mais inocente que menino descobrindo de onde vêm os bebês. Pensa comigo, gafanhoto, ele tava crente que ia se dar e nem cogitou que a mulher pudesse realmente só querer sair. Tá,eu sei que o mais comum é a malícia, mas estamos falando de costume social e não do que a mídia induz.

"Malandramente / Fez cara de carente / Envolvida com a tropa / Começou a seduzir"
Aí, bem possível que tenha acontecido uma deturpação de intenções pela vontade do cara... Fácil deduzir que neste momento foi outra parte do corpo dele que assumiu a atividade primária de pensar (se é que vocês me entendem). Tipo um conhecido meu que, num carnaval perdido em Cabo Frio - RJ, associou o fato de sua namoradinha da época ter aparecido de saia pro encontro, o que pra ele já era a legenda pendurada no pescoço de que estava pronta 'pro abate'. Ele se frustrou muito, mas isso é papo pra outra hora.

Malandramente / Meteu o pé pra casa / Diz que a mãe tá ligando / Nós se vê por aí
A maldade já se alastrou há tanto tempo pelo mundo que sair pra se divertir sem envolver sexo já tá fazendo algumas pessoas parecerem hipócritas (naquela distorção de significado que já escrevi aqui no blog) e até dissimuladas. Tipo, 'não quer dar? Pra que veio, então? Só pra gastar meu dinheiro?'. Vejo muito isso por aí. Tenho amigos homens e nem todos são engajados na missão da igualdade e respeito. Acham que perdendo os privilégios do machismo vão 'dar moral' pra mulher.

Ai Safada! / Na hora de ganhar madeirada / A menina meteu o pé pra casa
E mandou um recadinho pra mim / Nós se vê por aí...
E aí, viemos à cereja do bolo, quando Nego Bam resume (cantando muito bem, diga-se) toda a frustração do taradinho. Quer dizer, o cara gasta uma grana, dá atenção, chama pra sair, ela aceita e não vai dar? Cuma?! Assim não tem machinho que aguente! Fora que pela expressão popular, ele já associou que sua 'madeira' é uma dádiva concedida às sortudas que ele convida pra sair, já que ela ia 'GANHAR' a tal madeirada. Desfeita tamanha que não teve outro jeito se não xingar a 'SAFADA'.



Tem homem que é carente, tão carente, que precisa de uma afirmação feminina pra se sentir menos carente... aí, finge que se acha, porque não pode parecer que dependeu de uma mulher pra se sentir bem. 

Por falar na personagem, obrigado, meninos, por trazerem para a produção bailarina Pamella Gomes.




Peraê, só mais um pouco de Pamella Gomes...



Tá, já podemos prosseguir...

Esse texto é uma brincadeira? É. Porém, vale a análise, pois a gente acha que música é mero entretenimento, mas suas letras são retratos fiéis de nossos hábitos, culturas e da nossa sociedade em si. Quer mais fiel retrato de um tempo do que aquilo que é feito enquanto ele acontece?

Fica o alerta duplo: Primeiramente, crie o hábito de prestar atenção numa letra de música - seja qual for, sem preconceito - enquanto texto, enquanto a mensagem que é e não só um pretexto pra ter batida e instrumentos tocando. Se possível, repasse a letra falada, sem a divisão melódica... melhor ainda se for lida como um texto. Assim a gente pode perceber esses detalhes de conteúdo ou mesmo os reflexos de nossos costumes sociais. Por exemplo, tem letra que traz mensagens mais complexas em suas entrelinhas, como Vinícius de Moraes em Canto de Ossanha: "O homem que diz sou, não é, porque, quem é mesmo, é não sou" . Captou o tanto de conteúdo que o poetinha deixou numa frase aparentemente redundante e prolixa? Percebeu que se ele fosse esmiuçar esse trecho dentro da letra, ficaria um verdadeiro testamento? Uma bíblia!

Segundamente, não é porque a mulher dá atenção pra um homem que ela tem a obrigação de dar algo mais em retribuição a qualquer convite. Dá se quiser. Faz se quiser, faz o que quiser. Não, não sou um homem desertor, traidor da espécie. É que não gosto de sistemas de opressão, muito menos os que naturalizados a se passarem por obra da natureza. Além de ter sido criado essencialmente por mulheres, o que me faria muito mal pensar que estou tratando a 'espécie' que me criou como seres inferiores, meras reprodutoras. E tem muita jovenzinha com quem convivo, né? Mais do que motivo pra ter responsabilidade de ensiná-las que não é obedecendo vontades machistas que vão ser valorizadas... é bem o contrário. 

Malandramente, vamos desconstruir esses hábitos boçais de escala de valores sociais diferentes entre piupius e pepekas. A mulher não obrigada a servir aos anseios masculinos pra mostrarem valor ou parecerem descoladas. Se quiserem, fiquem à vontade pra escolher isso por sua própria vontade. Aliás, é outro problema do machismo: Negar à mulher o direito natural de sentir desejo, tesão sem aquele costume religioso de apenas aceitar o sexo para reproduzir depois do casamento pré-programado desde o nascimento. Enfim, vamos lá que o jogo segue e a coisa não pode terminar em pizza... ou pode?.

Bom mesmo é pedir pizza malandramente. Rá!





Admito que a música é divertida e depois da décima nona vez que você ouve ela na festinha fica contagiante (e a cachaça ajuda), mas... Ela tem todo direito de ir embora sem "ganhar" "madeirada", ok?